

Bebi-o a copo, numa destas tardes em que o mundo nos assoberba e nos desanca a cada passo dado na calçada. O serviço a copo também traz benfeitorias, como beber várias qualidades, se o preço for justo. E este foi, 3,50 euros de pecúnia, a unidade, que eu reverti em quase meia garrafa que, em loja, custa 4,69 euros. Haja juízo e o vinho pode ser âncora na economia.
Este é um vinho de lote, composto a partir de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen, sem passagem por madeira. Airoso e donairoso, é simples no beber, com um longo final e taninos tranquilos nos seus 12, 5º. Chega-me das Terras de Azurara, uma das sete sub-regiões que constituem a Demarcação do Dão.
Verti-o em conversa, afiada como é meu costume e que levou alguém a tomá-la como desrespeitadora. Ora eu, que tenho dias em que o vinho fala por mim, ressentido, esparzido pela contumácia e levado pelo espargimento, aquietei-me na conversa.
Umas iscas e um trinca dentes e o vinho, nítido e de um vermelho austero, botou qualidade ao copo, em registo fresco, boa acidez e fluído. Extraordinária surpresa as coisas simples.
O ano foi de vindima com dezembro frio, temperaturas mais amenas que o habitual e uvas cedo nas parreiras. Em março já abrolhavam, ditam os relatórios e lembro-me eu, e houve desavinho, que é como quem diz o abortamento das flores, das videiras ou dos bagos, que impede a formação completa da uva. As chuvas de junho compuseram as cepas, o cuidado com o orvalho obrigou a muita atenção e vinhas penteadas, para arejar os cachos.
A Adega Cooperativa de Mangualde, fundada a 4 de dezembro de 1963, tem 400 sócios ativos e capacidade para vinificar 6000 toneladas de uvas. Excessos dos fundos europeus que levaram a gestão a comprar uvas a não associados e a engarrafar para terceiros. Nada de mal, é preciso cuidar das receitas e há ali rendimento.
O Centro Interpretativo da Vinha e do Vinho, que nos explica todo o processo vegetal e criativo na construção de um vinho. Pouco divulgado, é franquia para juntar turismo e agricultura. Assim, o vinho e os trabalhos associados à sua produção e conceção têm despertado um interesse crescente para a sociedade e economias locais, não só na componente gastronómica, como também na componente do enoturismo. Dinheiro, portanto.
Quanto ao vinho, fica bem em qualquer mesa e mostra-se cordato e saboroso.
Proporcional e janota. De beber já, e havendo brio, esquecer umas garrafas por mais uns anos.






