Estouvada, palavra que nos trouxe a alegria matinal e a energia, ao trabalho. Madrugada adentro, atravessava solitário a floresta de Bertelhe, na demanda de um computador. Caminho já marcado, descer a Nacional 2 e paragem para bifana. Das boas, e cerveja que o vinho era comum e expatriado. Eu não resisto à pedagogia, os bag in box no Dão estão aí, mais baratos e mais rentavéis para quem os vende. E com identidade, o que faz todo o sentido para um café na borda da Nacional 2.
Reunidos, alimentados a três cafés, o Nuno e a Lurdes levaram-me ao almoço. Ao rompão, um Cabriz e, na segunda botelha este fabuloso Duque de Viseu Branco 2021.

E porquê duas garrafas? Porque o serviço de mesa foi excelente, na cozinha a dona Maria entendeu que a vitela de Lafões e as chips mereciam hortaliças e havia conversa. A Lurdes, chefe do Estado-Maior que há vários meses congemina o Tondela Brancos, estudou na Guarda, e em Coimbra mas isso são outros vinte, e memórias do Ardérius, do Montanha e da Mais Alta. Assim se bebeu, na pacatez da conversa da mesa em que a única exigência, minha, foi de que demorasse, pelo menos, três quartos da hora. Porra, o corpo precisa de descanso. E feliz a opção.


O Duque de Viseu Branco 2021, um clássico do Dão em versão branca, é produzido pela Quinta dos Carvalhais, um dos projetos mais emblemáticos da Região e que a ajudou a erguer-se, nos idos de 90. O vinho conta essa estória, fresco e complexo, ficámos ali na expectativa que abrisse e, sim, depois vieram notas cítricas, um subtil, e sublime, toque vegetal que lhe deu essa complexidade, de três colheitas após, ou quatro anos se preferirem.
Acidez viva, corpo médio e uma textura sóbria. O final, longo, fresco e muito equilibrado, pede tabaco e conversa. É vinho capaz de falar connosco próprios. Afinal há ali o melhor que temos: Encruzado, Gouveio, Malvasia Fina e Bical.

As castas foram vinificadas separadamente em cubas de inox, dois quintos do lote foram descansar nas enormes cubas metálicas, o outro quinto, libérrimo, passou os mesmos 4 meses em estágio, mas em barricas de carvalho francês.
Companheiro fiel da mesa, a garrafa custa 6,90 e esta foi cortesia de trabalho, em almoço pródigo e com hoteleiros raros de encontrar. Conhecedores, simpáticos, atenciosos.

Um exemplo, se necessário fosse, como o Dão consegue produzir brancos com potencial de guarda, que evoluem em garrafa, ganham complexidade, não escoam frescura.
A vindima de 2021 foi considerada muito equilibrada, trouxe vinhos de excelente qualidade, especialmente os brancos. Isto num ano marcado por um Inverno e Primavera amenos, precipitação suficiente para garantir reservas hídricas. Já o Verão foi quente, mas sem extremos, o que permitiu uma maturação lenta e equilibrada das uvas. As castas, como o Encruzado e o Gouveio mostraram-se particularmente expressivas, com excelente equilíbrio entre açúcar e acidez. Vindima regular em quantidade e excelente em qualidade.
O bom coração granítico do Dão trouxe uma feliz dança de uvas, um sussurro de memória, para felizes dias.






