O Manuel Risadas herdou, em Jugueiros, taberna e mercearia em nome próprio que já vinha da família. Pouso antigo e com lastro. Ficam na memória as portadas azuis, a varanda e as parreiras. No dealbar das modernas tabernas, foi transitando de mão e mão, acrescentado de telheiro e assador e hoje acolhe o Vermelho e Verde, que continua o que sempre foi, conversa, petisqueira e boas botelhas.



Entrei lá um destes dias para beber um branco e, no sábado, passeava com a família para vencer a atribulada procura pela esplanada com o Dão perfeito para o remanso. A Anita, pragmática e fleumática, eu já rabugento, ali nos sentou. Bebemos um Perpita para começo de conversa e, com mesa marcada noutro lugar – perdoa Lúcia, a fome ditou que ali almoçássemos.
Já vou ao cardápio, antes as notas da cozinha que nos oferece o Vermelho e Verde, desde a cabidela a outros pratos. Comida de tacho. Há ali alma, rasgo, esplanada copiosa e ambiente efusivo. Coração aberto, goelas escancaradas e lá entregámos estômago e alma.

De entretém vínico, umas tostas de maionese com alho, que me souberam pela alma. Eu, de comeres e beberes, gosto sempre que me aviem o vinho para me entreter nas escolhas. O Afonso comeu panados com arroz de tomate, no ponto. Cremoso e ligeiramente caldoso, textura aveludada e um brilho apetitoso. A Anita requisitou arroz de salpicão, prato típico da Serra de Montemuro e difícil de encontrar em Viseu. Cozinha serrana, simplicidade dos ingredientes, embora eu preferisse o salpicão com mais tempo de fumeiro.
Eu embalei nos secretos de porco, que a moderna distribuição nos põe na mesa, um dos cortes mais apreciados do porcino, escondido entre o lombo e a gordura, suculentos e prenhes de sabor.
Nada que enganar, boas cadeiras, sombra fresca e vamos ao conforto gastronómico. Sim, desse raro e difícil de encontrar. Há alma, alguns contrastes, o recanto continua discreto, espaço acolhedor, decoração simples, mas calorosa, com mesas de boa madeira e melhor verga, no exterior. O Vermelho e o Verde, que vai na terceira morada e estou em crer encontrou finalmente o local ideal aos estados de espírito de poetas e finórios.

O vermelho do vinho, o verde da tranquilidade. Por oitenta euros, sobremesa e duas botelhas de vinho estirámos na esplanada, abrigados do inclemente calor.
O restaurante aceita reservas e tem outras especialidades, entre a já citada cabidela, leitão, boas bifanas para o mata-bicho matinal. Há mais, entre petiscos e vinhos.
Atendimento simpático, capaz de dominar a minha proverbial gardunha.
Os preços são acessíveis, as conversas surgem sempre imprevistas e o espaço, bom o espaço é a velha, embora sofisticada sem presunção, taberna do Risadas.


Que a pintaram de vermelho e verde? Pois seja, ficou a parreira e um coçar de barriga pleno de satisfação.






