Sirlyn Reserva Branco 2017


Publicado por:

a

em

Sirlyn Reserva Branco 2017

Explosivo, floral, mineral. E fresco, muito fresco. Fecundo também, 15º que a vindima foi boa e as cepas estão cuidadas. Reclama cuidados redobrados e atenções dedicadas. Este Branco traz com ele não só a sabedoria ancestral dos bons e velhos brancos de Tondela, e eu sou do tempo em que na Adega o primeiro rosé foi feito com ideia de escoar a excessiva produção de brancos. Uma cuba, ou uma tonelada se preferirem, largada no tegão com outras três tinas de tinto. A enologia, e sabedoria bem digerida e acrescentada, cuida do bom. Por 205 escudos, creio, uma moeda de ouro sem valorização na adega.

Ao copo. Os ouvidos de escrever contam-me que um golo curto e um cigarro são suficientes para lhe tocar o encargo. A última vez que bebi um destes foi na Adega do Ti Vaz, homem que sempre usou toneis, aduelas reunidas em torno do branco. Em Vilela. E aí, mais novo e rudimentar, estalei ao vinho e à cebola pequena avinagrada. Conversa politizada, as mãos trabalhadoras do Ti Vaz a agarrem-me no cachaço e meia-volta na porta da adega, que no caso eram duas na mesma esquina devido às operações vínicas. Com a mesma rapidez que o septuagenário, e meu amigo, me pôs fora, assim voltei a entrar. E o robusto branco, só me deixou dizer: “Ó Ti Vaz, você tem cá vinho do baril”. Adiante que vou a velho e cultivo memórias, não cepas. Essas, bebo-as.

Este 2017 saiu agora para o mercado, antes deixou as barricas, já lá chego, e entrou no inox para engarrafar.

E que entrou nessas barricas, o que veio dessas vinhas velhas, misturadas, solturas entre Fernão Pires; Malvasia Fina, Bical, Cerceal Branco, Síria e a Branda. A Branda, o nosso Barcelo, merece aqui justo homónimo. Digo eu, nas singularidades únicas em que o provei. Pouco comum, a Branda traz acidez fresca e fruta. Também delicadeza. E o vinho precisa disso.

Ora, assim encorpado, as videiras trouxeram ainda a Malvasia Fina, a explosão floral, doçura. A Bical, justa acidez e fruta que requer cronometro certo na altura da vindima.

O Cerceal-Branco traz irreverência, ousadia, intensidade, tudo com elevada acidez e boas notas minerais. O Fernão Pires, que julgara casta não autorizada, mas a que o engenheiro Nuno Cancela de Abreu cortou ignorância minha, trouxe-lhe um doce rebuliço. Mais fruta e mais estrutura. Do Encruzado, que cada vez mais aprecio e que é um estandarte a merecer cuidado e personalização, vigor e rendimento.

Um filed blend extraordinário, único e muito bem doseado. Como se faz isto? Bom, isso é ciência que a minha ouvidoria vai topando, mas é preciso nariz. E, notem, colhido em 2017, esteve sete anos a dormir o sono dos justos. Perdoem, que estalo. Que vinho de estalo. Que pede muita e boa mesa, petiscaria, guloso é o vinho.

O Sirlyn Reserva Branco 2017 é um vinho que chega de cepas velhas, algumas de seis décadas, e, julgo e desejo eu, que estejam todas juntas, na mesma parcela, tal field blend, o mais fascinantes desse saber antigo. A vinha de mistura, não se aquietem com as palavras, é tradição com séculos e que estamos agora a saber valorizar. O património sempre lá esteve. Diferentes castas brancas plantadas em parcela única, a crescer lado a lado na mesma vinha. E não, não há ali nada de aleatório, há padrões dos bons e antigos viticultores, que os novos modernos, em boa hora, foram escutar. E que bom que o conhecimento fica e preserva.

Um “seguro de colheitas”, acidez, aroma, corpo, maturação. Os antigos sabiam-no, e temperavam. Na vinha. Umas com acidez, outras encorpadas, mais umas açucaradas e outras estruturadas. Harmonia, é uma orquestra a tocar sinfonia às vinhas que nos dão este regado. Vinho muito complexo, camada sobra camada, aromas e sabores. E juntos, chegam a velhos. Ali, nas barricas, para alinhar consórcios, complexidade, estrutura e um notável potencial de guarda. Eu provei-o.

Esse saber ancestral dos viticultores antigos que quase se nos escapava com tanto “vitis”. Na feitura, bica aberta, pouca maceração pelicular, aromas e estrutura. Parte da fermentação saltou à madeira, carvalho que o sabe amaciar. No nariz, como vos disse, muito aromático, frutas maduras e um pequeno toque do carvalho. No palato, bom, frutado, acidez calibrada, e um enorme, longo e feliz final de boca. No corpo, persistência, estrutura e uma doçura natural.

A vindima de 2017 no Dão foi seca, stress hídrico e maturação precoce. Condições que tiraram na quantidade o que acrescentaram na qualidade.

Este vinho percebeu a origem e que as uvas se aguentaram em ano seco. Confesso, não lhe tomei o preço, mas é complexo e autêntico. Uma lição de viticultura para treinarmos. Protegidos por boa mesa.

Carrinho0
Não há produtos no carrinho!
Continuar a comprar
0