Terras Madre de Água Encruzado 2022


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Terras Madre de Água Encruzado 2022

Escolheu-se, para segundo vinho e apesar dos alertas da Anita, estava fresco, bom e poderoso. E, curioso, tinha vindo do Norte onde, ao almoço, o proprietário da casa me alertara, precisamente, para a bondade dos vinhos de altitude. De montanha. Enfim, precisamos definir um termo e altitude parece acertado. Este é um deles. De altitude, e atitude, que desceu a montanha.

Este vinho, de corpo etéreo e espírito robusto, sussurra ao olfato segredos de flores orvalhadas, a terra molhada que lhe confere a solidez da origem. Ao palato, desenrola-se uma sinfonia de frescura: acidez viva, como a melodia de um riacho que salta entre pedras, enlaça-se em notas de boa mineralidade, e a um preço abordável, 8,90 euros. O final é um verso longo e persistente, que nos deixa a meditar sobre a elegância serena e o potencial de uma casta que é, por direito, a rainha branca do Dão. Não é apenas um vinho, é uma epifania líquida da sua paisagem.

Ora “mãe-d’água” ou “madre d’água” dita uma nascente de água, ou seja, o local onde a água brota da terra. É a “mãe” que dá origem ao rio, à fonte, ao caminho. Um significado diretamente ligado à Quinta Madre de Água, que se localiza numa região rica em recursos hídricos, no sopé da Serra da Estrela, e cujo logótipo representa os cristais da água. Mas é também, no imaginário dos nossos corações, a sereia, essa entidade fantástica que habita rios, associada à beleza e ao perigo da natureza.

Produzido pela Quinta Madre de Água, um projeto que se estende por 60 hectares no sopé da Serra da Estrela, na região do Dão, é um monovarietal, de cor pálida, verde-amarelada, límpida e brilhante. O nariz revela uma intensidade média com notas florais brancas, boa fruta e uma clara mineralidade, reminiscentes de pedra molhada.

Na boca, é um vinho fresco e leve, com uma acidez vibrante e bem integrada, que lhe confere alguma untuosidade e o torna para final longo e elegante. No Relatório de Vindima 2022 detalha-se que a colheita teve condições climáticas desafiantes, um dos anos mais quentes e secos de que há registo. As altas temperaturas e a escassez de água resultaram numa vindima mais precoce do que o habitual e numa quebra de produção. No entanto, a resiliência da vinha e a gestão cuidadosa permitiram obter uvas de alta qualidade, concentradas e com uma acidez equilibrada, resultando em vinhos que expressam bem a sua casta e o seu terroir.

Neste Dão, a casta Encruzado é a musa que evoca a luz pálida de um amanhecer tardio, granítico, e deu-se bem com uma vindima em ano caprichoso de 2022, onde o estio foi um desafio de ardor e a vindima, um ato de destreza e fé. Sim, Madre de Água não se inscreve no léxico técnico da enologia, antes na profundidade da toponímia, porém, não deixa de ser a origem, o manancial, o ponto de partida vital para a fertilidade da terra e essa alegria de viver.

É, no fundo, a metáfora da origem, vida e caráter do solo, um vinho que congrega frescura e mineralidade, carregando a essência vital da Serra da Estrela. É a mãe que nutre a vinha e que, de forma sublime, se manifesta na pureza e na elegância do copo.

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