Maria João Grande Cuvée 2015


Publicado por:

a

em

Maria João Grande Cuvée 2015

Abri-o, já noite alta e no final de uma semana e de fogos e partidas. E estava ali, ia na terceira garrafa do dia, nas memórias e lembranças, dos que me partiram e me fazem falta. Mesmo sabendo eu que sou a ovelha negra da família, não deixo de ser uma ovelha sequiosa. E ali estivemos, eu e o copo, contemplativos, talvez cinzento da alma, cansado do tanto que vivi, do muito que tenho para viver e das saudades. E, perdão pela presunção, creio que foi o solilóquio indicado para beber por todos aqueles que me deixaram, partidos para essa terra.

O Maria João Grande Cuvée 2015, na boca, não é um desafio, mas uma revelação. A acidez, perfeita e cirúrgica, transporta-o num voo longo e gracioso, onde a complexidade se veste de simplicidade elegante. É a conjugação da Bical e da Malvasia Fina com a rainha Encruzado que lhe confere um corpo cheio e uma persistência que se eterniza em nuances tostadas e herbáceas. Uma cor citrina límpida e brilhante, com bolha fina e persistente. Nariz delicado e complexo, com notas de limão, que evoluem para aromas mais complexos, resultantes do longo estágio em borras finas. Em boca, a acidez está perfeitamente integrada, conferindo-lhe uma frescura notável. É um vinho complexo e delicado, com um final longo e expressivo que remete a toques cítricos.

Produzido pela Quinta do Solar do Arcediago, este é um espumante de assemblage, composto por 80% Encruzado, 10% Bical e 10% Malvasia Fina, as castas brancas nobres da região do Dão e que lhe merecem a outorga dos 26 euros a botelha.

O ano de 2015 foi marcado por um Inverno seco e uma Primavera com temperaturas acima da média. O Verão foi quente, mas sem picos de calor extremos, o que, juntamente com o tempo seco, evitou o desenvolvimento de doenças na vinha. Embora a produção tenha registado um decréscimo, a qualidade geral das uvas foi excelente, resultando em vinhos brancos promissores, e cá estão eles, com grande potencial aromático.

Cuvée” é um termo de origem francesa que, no mundo dos vinhos, principalmente espumantes, refere-se a um lote de vinhos. Existem vários significados, mas, de forma geral, indica um vinho de qualidade superior. No contexto dos espumantes, a “Cuvée” é geralmente o mosto obtido na primeira e mais delicada prensagem das uvas, resultando no sumo mais puro, elegante e de maior qualidade. O termo “Grande Cuvée” reforça essa distinção, indicando o melhor lote de vinhos de uma casa, muitas vezes de colheitas especiais ou de seleções de parcelas específicas, com um longo tempo de estágio, como é o caso deste vinho.

No santuário da Quinta do Solar do Arcediago, onde o tempo se mede em anos e não em dias, a colheita de 2015 foi um hino à resiliência. Desta vindima, moldada pela aridez estival e pela paciência do viticultor, nasceu o Maria João Grande Cuvée, uma joia líquida que transcende a temporalidade.

Ao libertar-se da garrafa, este espumante é um poema de bolhas finas e etéreas, uma efervescência que mais não é que o suspiro do solo granítico do Dão. O aroma, um prelúdio de rara delicadeza, revela a pureza do Encruzado, que se desdobra em notas de um limão sereno e de talos verdes, para depois evocar a nobreza de um brioche que emerge das caves, em sussurros de leveduras ancestrais.

É a expressão máxima de um savoir-faire que faz do tempo o seu principal aliado, culminando num espumante que não é apenas para beber, mas para celebrar. É a Grande Cuvée, a essência do que é excepcional.

Carrinho0
Não há produtos no carrinho!
Continuar a comprar
0