A Touriga Nacional, casta rainha que se eleva nos socalcos graníticos do Dão, encontra no “Amando” da Quinta da Perpita a sua mais nobre expressão, uma ode líquida à paciência e ao ofício. Este vinho, cujo nome ecoa o patriarca Amando Ferreira de Almeida, não se faz por acaso, mas por um lento e consciente processo de revelação. A sua alma é forjada na vinha, mas a sua elegância final é cinzelada pelo tempo.
Estive na Quinta, conheci proprietário e filhos, e topei-lhe as ganas. Ora tenho entrado em almoço domingueiro de branco; com tomate cherry, orégãos, azeite, Cobrançosa e Picual, e queijo fresco; achei que precisava assumir um tinto para as quatro horas que levei a cozinhar um lobo e uma macedónia.

No nariz, linguagem poética e complexa. Despertam aromas de fruta silvestre madura, entrelaçados com a subtileza floral da violeta, que é a assinatura lírica da Touriga. Acompanham-na notas balsâmicas e um toque de especiaria que sussurra a sabedoria da terra e a paciência do tempo. Na boca, a arquitetura é de um finesse notável. Taninos firmes, mas polidos, desenham uma estrutura sólida e equilibrada, que se funde numa frescura mineral. O seu final é longo, um eco persistente da fruta e da paisagem, um convite a ser contemplado, a ser compreendido em cada golo.
No coração do Dão, onde a Touriga Nacional se ergue como uma princesa altiva, o vinho “Amando” da Quinta da Perpita encarna a nobreza e o espírito ancestral da casta, mais do que um vinho, é uma homenagem, um tributo a Amando Ferreira de Almeida, patriarca e artífice da tradição que a terceira geração preserva com paixão em Oliveira de Barreiros.

A Touriga Nacional, nesta paisagem de granito e altitude, forja um perfil que a distingue. Longe da exuberância tropical de outras latitudes, aqui ela cinge-se a uma elegância austera e contida. O “Amando” 2023 é um reflexo desse diálogo íntimo com a terra. A sua cor, um rubi profundo, promete uma viagem sensorial que se desdobra em camadas, tudo isto a 12,5 euros a botelha.
O estágio de nove meses em pipos de carvalho usado não foi uma imposição, mas um namoro, uma escolha deliberada para que a madeira não gritasse, mas sim abraçasse com discrição. Neste leito de carvalho, o vinho não adquire roupagem estranha, antes aprofunda a própria essência. É aqui que os taninos, ainda jovens e impetuosos, são polidos e arredondados, como se o tempo os amaciasse em pedra de rio. É aqui que as notas de fruta silvestre e o floral da violeta se fundem com um leve toque de especiaria, uma herança subtil do carvalho que não invade, mas complementa.
O “Amando” 2023 é, portanto, um vinho de profundidade, um tinto de rubi intenso que, no nariz, desvenda uma complexidade que evoca a floresta e o fruto maduro. Na boca, a sua textura sedosa e a acidez precisa são o resultado de uma alquimia perfeita entre a terra, a casta e o ofício paciente do enólogo. É um vinho com memória, que honra o passado e promete um futuro de grande nobreza e longevidade. Beber o “Amando” é comungar da alma do Dão, numa taça de poesia e erudição. Um vinho com alma e memória.






