Em 34 anos, cresceram as árvores, manteve-se o anel de aldeias à volta, cresceram algumas casas ali perto. A Quinta da Magaranha continua restaurante de casa cheia e comida regional, o adjectivo é elogio. Comer e beber local, é prática que mantenho desde há uma dúzia de anos. Pelo menos. No essencial manteve as vistas. As janelas também. E, na porta dos fundos, expressão que incendeia almas pudicas, um outro salão, com bar e suficientemente reservado para estroinas. Com varanda também. As vistas, as janelas e a esplanada são um enlevo. Apesar de ser casa com assentadoria para 750 mastigantes, o serviço é ágil, atento e tira partido de uma cozinha eficiente.


Assim, num Sábado, de família junta e sem rebuliços, convite para jantar, com pessoas amigas, uma pintora, e tatuadora que isto anda tudo ligado e uma ceramista, galerista e, também, hoteleira. Aceitámos, com entusiasmo e alegria, a partilha da mesa. Estando a administradora entre os convivas, não pagámos a conta, uma cortesia que não impede, de todo e nem podia ser de outra forma, justiça e honestidade. Nas pesquisas que fiz, e no saber que as doses são abundantes e chegam para dois esfomeados, o preço médio por refeição ronda os 20 euros, pessoa. Porém, devido às generosas doses, vá acompanhado, partilhe da refeição e desfrute.


Para cinco pessoas pedimos dose e meia de nacos, grelhados, que vieram com batata frita honesta, caseira que não gosto de chips – só dos tecnológicos, arroz de feijão caldoso, enriquecido com couve e nacos de chouriço. Chegou também, piquei a cebola e o tomate, uma supranumerária salada mista. Chegaram para três. Outros dois comedores foram pelo bacalhau com natas, com pimentos laranja e uma crosta de forno que lhe deu crocante e avivou o sabor do gadídeo. Nas sobremesas, e porque queria apreciar a paisagem de cigarro na mão, pedi um leite creme, enxuto e tostado.
Não se desperdiça comida, ainda me acheguei ao bacalhau depois da carne e ninguém se abespinhou pela heterodoxia, foi tudo mastigado e apreciado. No final, depois do café, pedi um tinto de serviço, aqui é sempre e bem do Dão, apenas me chegou o copo, já sem pé alto e nem lhe vi a garrafa. Felizmente o nariz ainda destrinça o Dão de outras beberagens. A finesse imporia outra lhaneza, ainda assim, esplanadei por muito tempo, de cigarros e cavaqueira, porque tive bom senso de levar casaquito.

A garrafeira é robusta, estou sempre a ver os rótulos e marcas, atento ao Dão e como marca presença. Ainda acabado de sentar, já pedia um Encruzado, nesta minha forma de aperitivar a refeição. Foi nesse momento que captei as janelas, a varanda e esplanada, e as vistas, Dão aos pés, Estrela ao alto.
A Quinta da Magarenha continua bom porto para boa comida, as especialidades de peixe também recebem elogios significativos, sobremodo o “arroz de corvina com gambas” e os “filetes de polvo”, tipicamente beirões. Como vêm, a comida regional está em alta e tem boa cotação. Incluindo os nossos “nacos” de vitela, não confundam com a “posta” que isso é outro prato, estavam no ponto. Muito boa, a qualidade da carne servida. Serviço sem demoras e melhor ambiente. Sim, os decibéis foram reduzidos com madeira e demais parafernália.
Houve um tempo em que os caminhos para o interior de Viseu se faziam devagar, e o Dão, de vinhas e paisagens ondulantes, ainda era um segredo bem guardado. Foi nesse tempo, há 34 anos, que a Quinta da Magarenha abriu portas, não apenas como um restaurante, mas como um abrigo para a alma da região. Este não lugar que se encontre por acaso, a localização é imponente, excelso destino para desacelerar e a saborear a história que o tempo, pacientemente, teceu nestas paredes.
À saída, Leste, de Viseu, a Magarenha ergue-se como testemunho dessa tradição. O edifício, de robusta pedra e arquitetura pensada, conversou comigo, sussurrou histórias, lembranças, como a fotografia de meus tios, tirada nas escadas, com o afilhado e meu irmão do meio, quando este se formou e que durante anos decorou a casa paterna. O detalhe está nesse ambiente rústico, as palavras não arranham nem insultam, a identidade do Dão também.
A cozinha da Quinta da Magarenha tem mão hábil e sensível. E o Dão? A carta de vinhos é um ode ao Dão, e a outras regiões, bem aparelhada, petrechada e recheada. A garrafeira está bem aprovisionada e os suprimentos de boa índole. Há saber na construção da carta de vinhos que, para os despreocupados, implica gerir stocks – que em breve a tecnologia deste Armazém poderá ajudar, porque ter muitas botelhas e grande variedade significa ter contador, escriturário e guarda-livros, é activo que pesa na gestão.

Visitar a Quinta da Magarenha, com mesa de convivas de boa conversa e cosmopolitas, é, no fundo, uma viagem no tempo. Um regresso às origens, à honestidade da cozinha. É ver a tranquilidade de uma vida por um outro prisma, o movimento da natureza. Autenticidade em cada garfada. Um hino à simplicidade, que não perde sofisticação, antes ganha essa celebração, que a merece. Bem hajam pela companhia, pelo repasto e, no tudo que é tudo e muito me agrada, pela conversa e amizade. Afinal, ainda se mastiga ao sabor da tradição.






