A organização do tempo, o pensar de um velho que usa agenda, bloco de notas, caderno de viagens, brochura para coisas impossíveis. E, nisto, penso na vindima, no livrete para o trator, a caderneta para o prédio, o fascículo para o cliente, o folheto para o turista, o registro, e registo, do tempo. Os euros. Anotar, inscrever, catalogar, memorizar, assentar, protocolar e marcar. A vida de vinhateiro é dura. Aqui há dias, espantei-me quando foi o próprio produtor a atender o telefone. Neste meu caderno de viagem, a primeira prova foi em 2023, um ano após a safra, meu Filho andava em bolandas, longo e feliz verão para ele. No regresso, ou na ida, bebemos no Tertúlia. E estávamos sequiosos. Das notas de viagem e de vinho.

Da segunda prova, ia subindo a estrada do Dão, petisqueira e solarenga, encostei e um branco para o caminho. Talvez Fevereiro de 2024. Na última, a caminho de Seia, amarrei outra prova, e botelha. O João, se te troquei o nome culpas minhas, recebeu-me com entusiasmo e a prontidão de um jovem treinado e proficiente. Até quando eu resolvi fazer daquelas fotos endiabradas. E pergunto. E porquê uma terceira prova? Porque o comecei a conhecer em 2023, em 2024 avaliei a evolução e uma terceira prova, está muito melhor, porque calhou ao caminho. E vim de botelha aviada. Mas antes, esta mania de meter o bedelho onde não sou chamado, apontei a vinha nova. A terra presa nas raízes dos pinheiros, um barranco. O jovem Rego elucidou-me e, com elevada educação para um ignorante como eu, explicou-me as corretivas pelo que meti a viola no saco, o copo na mão e o cigarro nos lábios.


O vinho é canção, cada botelha, que do mesmo ano, traz interpretação nova, sensibilidade de quem escuta o vagar ao vinho. E contempla, olha aos detalhes, sempre novas, estórias contadas, personagens alegres no quotidiano, as coisas mais simples, como o supetão de abrir o pisca e virar para o interior de Casal Sancho e estacionar na brita. Foi a terceira prova, nas Fidalgas de Santar, ideia que floresce, não enjeita ancestral nem a Beira, usa de visão moderna e apaixonada. Liderada pelo João Rego, o outro João é o filho, dedica-se a honrar a tradição da Região Demarcada do Dão, elevando a qualidade e a elegância dos seus vinhos de uma forma distintiva. Até no plantio de nova vinha. Nos socalcos, já a subir a Pinoca.

Contra tempo, quantas vezes nos rendemos à garrafa, à Quinta das Fidalgas, uma propriedade singular que conta sete campos de bom futebol bem medido, em vinha. Daqui saem 50.000 garrafas anuais, mais milhar menos centena, a vinha assenta nos tradicionais solos graníticos do Dão, e que bem que se vêm na vinha nova que já tem nome e tudo, excelente drenagem, eis o segredo para a obtenção de uvas de grande concentração aromática e acidez notável.
O projeto segue à risca as castas nobres do Dão, eu agora ando encantado com o Jaen, pode Mencía não me inquieta se o porta-enxertos estiver do lado de cá e, além do mais é regulamentar. A fruta e aqule mistério que coça o nariz.
Contratempo, diz, o que nos foge e, no entanto, revela a forma como o vinho evoluiu, um tratado de escrita, profundidade além do superficial. Histórias reais, neste Dão de floresta, ainda apesar de tudo, pinheiros mansos na quinta, esperem pelo chão de pinhal nos vinhos que dali haverão de vir. O design de vinha, moderno, otimiza a exposição solar e a ventilação, mas firma compasso dos costumes, menos produção por videira, qualidade excecional na uva.


Ora o meu Encruzado, que rola a 11 euros, é qualquer coisa, passada pelo tempo, o entrelaçar das provas, o inevitável tornado inexplicável, o entrelaçar das memórias, o regresso à existência. E esse diário, ou III Prova, mostra isso mesmo, o processo criativo do vinho, ou, engenhando, o entendimento do vinho bebido, indo além da palavra cantada. “Na pronúncia do olhar, que acende o dia quando vens”.
O vinho Encruzado do Dão, quando pacientemente envelhecido em garrafa, transcende a vibrante frescura inicial e alcandora-se à complexidade dourada, o fascínio, a evolução, untuoso e melado e profundamente sofisticado. O apanágio dos grandes brancos de guarda. Na boca, a acidez, que era cítrica e tensa, amacia, cremosa e envolvente, viva e persistente, esse intemporal e um final de prova que é simultaneamente profundo e memorável.






