Picos do Couto Chardonnay 2023 (IVV)


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Picos do Couto Chardonnay 2023 (IVV)

É a rebeldia da cócega, uma garrafa de luz verde-escura que nos chega das entranhas de Penalva do Castelo, do solar onde o Dão é Rei e o granito a matriz.

E que bem capta a sua essência, esta criação da Tavfer Vinhos não é um Dão no papel, é certo, e porventura essa é a sua mais secreta beleza. É a cócega que sente a Beira Alta. O Chardonnay, forasteiro elegante, recusou a lei da denominação, a etiqueta oficial, para se afirmar como o desvio bem-vindo, o murmúrio da insubmissão na paisagem de Encruzados e Tourigas. Se gosto? Sou pela certificação, não sendo casta autorizada, tem selo IVV, ainda assim é produzido na região e merece molhadura.

A casta é uma tela do mundo, a Chardonnay rainha cosmopolita, tratada e cuidada pelo enólogo para responder a um mercado, não direi mais sofisticado, mas a consumidores que tomam esta mania de procurar por ela. Já o vi com outras francesices, fico na enologia, capaz de vestir a leveza cristalina dos dias frios ou a opulência aveludada da madeira e do tempo. Aqui, nas Terras de Viriato, ela chega como uma forasteira audaciosa. No Dão, a casta branca por excelência é a Encruzado, e a Chardonnay, por não pertencer ao cânone, é forçada a provar o seu valor. É a rebeldia que lhe dá o carácter, não ambiciona ser a manteiga da Borgonha, nem a simplicidade australiana; quer ser o retrato do chão de Penalva do Castelo, absorvendo a mineralidade do granito para oferecer a sua elegância em troca. É uma uva que se permite a tudo, e aqui, escolhe ser frescura e espinha dorsal. Mormente as indicações do produtor, no contrarrótulo, não creio que ganhe evolução com mais anos, é vinho jovem, de convívio, mais de entrada, que de mesa.

No copo, este vinho não poupa a sua presença. Tem a energia e a acidez natural de quem nasceu no frio da montanha e traz o corpo bem estruturado. No nariz, não é o manto gordo e tropical, mas sim a promessa dos citrinos envolvida na poeira fina das pedras, a sugestão mineral que nos evoca o Castendo. É consistente e homogéneo, como um fôlego longo. Na boca, não se arrasta. A acidez é o seu fio ténue, a espinha dorsal que impede o corpo de se tornar carnudo em demasia. O final é bem conseguido e aromático, prolongando-se como o silêncio após um brinde. É um branco que nos pede tempo, que nos convida a demorar o palato, mas que não se pretende eterno, tem a vitalidade de um jovem no auge, a promessa de se apurar feita, mas acabou por se despedir, sem ressentimentos, nem mágoas.

É neste exato ponto, a fronteira entre o Dão puro e o vinho de mesa, que no fim de contas é o que representa o selo IVV e é da mesa que se trata, para mim, íntima querela. Os defensores da certificação e do autêntico, e bem fazemos em acarinhar a disciplina que salvaguarda a alma de um terroir, pelam-se com a voz do solo, a irrenunciável identidade que a história nos legou. O Chardonnay, por sua vez, é o convidado elegante que, não sendo a voz do Dão, capta o seu eco. Ele goza da liberdade de quem não tem de prestar contas ao pergaminho da lei, mas bebe da mesma seiva, do mesmo Castendo e oferece uma perspetiva nova. É a dialética entre a fidelidade ao passadouro, as castas ancestrais, o solo que molda, ir insubstituível, e a tentação do novo mundo, a expertise global, a interpretação fresca. Reconhecemos o valor inegável da certidão de origem, mas observamos com curiosidade o que acontece quando o rigor da montanha encontra a plasticidade da casta forasteira, gerando um rótulo que é, acima de tudo, um manifesto de versatilidade. Destinado ao grande consumo.

É, no fundo, a cócega da modernidade nascida no coração da Região, prova de que a sabedoria do lavrador consegue engrandecer qualquer uva que decida pousar nos seus socalcos. Um vinho que nos lembra, viver não é o que fizemos nem o que vamos fazer, mas o que estamos a fazer, agora, no sabor fresco e mineral deste copo. E depois tudo abala.

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