Atinge-se o sítio através da densa floresta. A barragem repousa serena junto à pequena aldeia de Várzea de Calde, cujas casas são banhadas pelo sinuoso rio Vouga, bravo nestes dias de chuvas. Revela-se uma paisagem ancestral e extraordinária, moldada pela escura mata, onde se contemplam as intensas cores selvagens da natureza. É um local recluso, idílico e profundamente telúrico, onde somos hipnotizados pela sua calma profunda e o seu silêncio solene. Há ali um outro labor, uma lavoura lenta, um modo de estar genuíno: uma Beira intocada e sábia. Percorro o silêncio infinito da Nacional 2, embora, confesso, prefiro atravessar o caminho curvo da Nacional 16 e roçar as faldas altivas do S. Macário, encontrando a velha ponte de Pinho, de pedra gasta.
Seja. As coordenadas gravam Várzea, a bússola imóvel aponta a Norte, onde dormem as terras no longo pousio dos dias. Ali se prometem as sementeiras do linho que hão de vir, o cadenciar antigo dos teares, e uma riqueza adormecida que irrompe em cada Primavera, tocada por mãos firmes de mulheres delicadas e rostos trigueiros.
Situada num terraço generoso com uma vista magnífica sobre o vale profundo onde serpeia o rio Vouga, a Várzea é um prodígio no meio da natureza circundante, alimentada pelas levadas que embalam silenciosos ritmos e futuras sementeiras, num ciclo de fiar e tecer perpétuo.



Várzea é essa fita do Vouga, onde se veem as pedras gordas sobrepostas na água, permitindo atravessar o rio sem molhar os pés. Detemo-nos a olhar o velho moinho, apreciando a solene natureza e descobrindo uma aldeia profundamente marcada pelo linho, que ditou hábitos e evidências, tecendo voltas, ripando e atando. Uma vida toda de molho, um maçadoiro feito estaquinha. Uma valente espadelada, o linho que estremece ao secar, os fios que dobam. Várzea é esse merecido hino à planta, à linhaça, aos teares, a viva ligação da terra ao homem, como o mostra o rico Museu do Linho de Várzea de Calde: o forno e o pão quente, o lagar e a escura adega, as cheias taleigas e as tulhas, a salgadeira e a fumegante cozinha.
Pão e vinho sobre o linho: esta é a franca hospitalidade beirã, contada fio a fio, seguindo o rio que murmura memórias, trazendo a antiga generosidade, da colheita à fiação. Arrancado, malhado e moído. Espadelado, batido, sedeirado e haja giro de fuso, dobrando e lavando.



Várzea de Calde é a aldeia onde a água corre sem parar, vertida aos pés do Museu na serena Fonte de S. Francisco. É o rio que fecunda as leiras rasas e os rincões escondidos, é o antigo regadio que levou D. Maria I a acreditar nas promissoras sementeiras. Várzea é a casa de lavoura aberta, a viva oficina do linho, o bater compassado de muitos teares, e as fiandeiras que cantam e encantam, escutando o sussurro constante das águas. Levam as espigas maduras, lavando rio e frágil ribeira, nas eiras quentes e nos cantares ancestrais.



E esse valente arraial do Três de Outubro, a que os tecedores chamam o “Toco de S. Francisco”: solenemente roubam-se pinheiros, guincham os carros, e no adro cheio ergue-se o vozear, num ano intermitente, dançando todos, varrendo as sobras do milho e do linho.




Descendo ao rio, encontram-se os campos laboriosos cultivados, as videiras antigas enlatadas, os encanamentos sábios, atravessando-se as pedras lisas para Sanguinhedo, cortando caminho até à barragem. Uma paisagem extraordinária, vestida de verde profundo e azul límpido, cadenciada e sincopada, quase musical. A Várzea é o linho, é a doce terra, é a generosidade da natureza feita pura magia, habilmente tecida e dobada. E vestida, pois então, de orgulho pelo belíssimo e coeso poema em prosa sobre a Várzea de Calde, ligando o rio, o linho, o trabalho, a fé e a festa.

Como ir?
Saindo de Viseu pelo terreiro da Feira de São Mateus, subir a norte, acompanhando o Caminho Interior de Santiago ou a EN-2 e, a 14 quilómetros, cortar à direita. Se preferir, tome a Nacional 16 e corte em Ribafeita, já a descer ao vouga.
O que ver?
Casa de Lavoura e Oficina do Linho, as poldras junto ao rio Vouga e a barragem. Ponte velha e o casario beirão e a extraordinária conduta que leva a água para a hídrica de Pinho.
Onde comer?
Na Rampinha há sempre fumeiro e casqueiro, broa e morcela, iscas de presunto e conversa. Mas o segredo está no cruzamento para a Póvoa de Calde, de um lado da N-2 os velhos espigueiros, do outro a boa, e genuína, mesa beirã.
O que comprar?
Linho, 40 euros o metro quadrado e produtos da agricultura, biológica, local.






