Dão à chuva


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Dão à chuva

Sim, olho a chuva miúda, enrolando o tinto, meditando nos que puxam os rígidos arames, esticam os pendões e cortam as ervas, aí percebe-se melhor o que nos Dão, o rio. Cordas e contrabaixos em dias de chuva, tardes copiosas de lágrimas abertas, escorrem ali ao céu como quem colhe dos pipos, arriando madeiras e fagotes. Tudo isso me assoma na espantosa prebenda que é perceber-se que alguém que olha os ciclos também outorga neles uma imensa e profunda bondade. Desvelo e ajuste, galochas e acende a lareira para o regresso.

Tudo isto encontramos nestes dias cálidos de Outono em Vila Corça, onde as vinhas bordejam este imenso espelho de água, ao longo do rio Dão. É perceber melhor a força telúrica de um rio único, num passeio ribeirinho que tem ainda o condão de mostrar um troço bem conservado, e quase esquecido, da EN-16, uma via quase centenária, que ainda se pode percorrer de farnel e com todos os vagares da alma.

Vila Corça é uma varanda para o rio, uma senda da vontade humana que moldou a natureza e criou esta paisagem, oliveiras, videiras, macieiras e castanheiros. A aldeia espraia-se entre arvoredos verdejantes e, nestes dias de borrasca, um furioso rio Dão, que desliza, pujante e bravo. O Rio vai de alma cheia.

Chegar lá implica apontar Leste à bússola, descer pela Nacional 16, indo pela cidade de Viseu até aos arrabaldes, depois do Caçador, esquecer autoestradas e descer a Fagilde. O alcatrão começa a descer, e não mude de concelho, espreite a água, no leito e na estação de tratamento e tem o Dão a estibordo.

Cada curva no rio significa uma curva na estrada e prodigiosas vistas num cenário natural, puro, simples e sensível, onde o trabalho dos homens acrescentou à paisagem expressão original e nova, longos vinhedos plantados ao correr do Dão. Quem a visita, surpreende-se pela intensidade aveludada do verde das margens, dos azuis do céu e da água, recantos paradisíacos, diversidade de habitats e uma tremenda variedade de vida, de peixes e aves que habitam ao longo do Dão. Aqui e ali, pequenos recantos escondidos, pedaços de vivências de antanho, como as centenárias oliveiras que balizam a estrada e algumas molham raízes no Dão nestes dias de fartura de águas, chuvas e neves. Adiante.

O rio torna férteis as margens, habitadas por quintas e pinhais. Socalcos da cidade vinhateira, um cenário de invulgar tranquilidade que marca Vila Corça, lugar ribeirinho e irrigado. Dizem os antigos que a toponímia advém da caça à corça, que há séculos atrás aqui existia. E Vila Corça é um desses roteiros que nos conduz ao miolo vibrante do concelho de Viseu, de onde se vislumbra pequenas serranias, o Botão, e no fundo Santos Êvos, um percurso para BTT encaixado na jovialidade de montes e vales. Parte de Santos Evos, a meia dúzia de quilómetros de Corvos e explora a freguesia, trilhos, subidas, descidas, pelas aldeias de Pinheiro, a Sul, e Remonde, Sernada, Dornelas e Corvos-à-Nogueira.

Hoje, este local paradisíaco permite banhos, no estio, canoagem e audazes aventuras de bicicleta. Extraordinárias as vistosas léguas por entre os enormes pinheiros e os vinhedos, que vão muito perto das margens. Aqui, a agricultura é moderna, mas o cultivo tem tradição secular, protegido por castanheiros e carvalhos. As habitações de granito e xisto são coloridas pela vegetação campestre de urzes e giestas. Uma longa margem sul do Dão que permite o contacto com a floresta, avifauna, rio e a diversidade de paisagem agrícola, onde sobressai o cultivo da vinha. São vinhedos a perder de vista, ali e acolá, e pequenos moinhos acobertados nas margens do rio por entre recantos, paisagens verdejantes e um enorme e palpável encanto natural, uma constante do melhor que a natureza tem para nos oferecer. Se abrir os olhos e escancarar os ouvidos, pode encontrar gaios e gralhas, melros e piscos, num ambiente rural, ameno e relaxante, pleno de brilho e vida. Toda a aldeia acompanha a albufeira de Fagilde, um lugar de serenidade profunda que possui uma vista deslumbrante sobre o espelho de água do rio Dão.

No regresso, assome nas aldeias, procure cruzar a barragem e retomar a EN-16, no troço entre Nesprido e Prime. E toda a arqueologia desta estrada; uma das principais ligações rodoviárias do país, conecta, ainda hoje, o porto de Aveiro à fronteira de Vilar Formoso. A antiga EN8-1ª, tomou nome e forma em 1930, centenária daqui a quatro anos, que conheci ainda em cimento e lá está a antiga toponímia e publicidade em azulejo, contemple. Memórias esquecidas no alcatrão, penduradas nas casas, ao longo de um percurso que mostra o lado mais natural e íntegro do concelho. Dispensa entrecôte, mas reclama velha e amarelinha.

Como ir?

Pela EN-16, a leste de Viseu e tomando o rio Dão a estibordo.

O que ver?

Arqueologia da EN-16, produzida e instalada pela extinta Junta Autónoma de Estradas, que teve cantoneiros de chapéu na cabeça e casas de abrigo.

Onde comer?

Numa qualquer aldeia, cervejaria no letreiro significa petisco e merenda.

O que comprar?

Vinho, maças e avelãs. Indague, procure saber.

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