Uma comezaina, não o bacalhau com grão, batata e ovo a nadar em azeite, que me anda a pelar, mas uma carnuça de forno e uma batatas para adornar barriguinha e chegamos ao âmago da prebenda. A mistura dos tabacos e dos etílicos. Nesta idade não me desorienta onde vou, antes o que vou comer. E no beber o mesmo. Não interessa a garrafa, antes o conteúdo. É aceitar o peso do ser, encontrar a alegria na revolta contra o vazio, e construir um sentido pessoal num universo que é, por natureza, indiferente. É um ato de coragem ontológica para enfrentar a finitude, a morte que se aproxima, mas também a intensidade do agora.



Arremato-lhe a lauta refeição com a aguardente? Ou desisto do existir?
Ora nos findares, cai artes de sofisticação, assim haja essa fantástica e requintada solicitação! Autorização também, diz a Anita que me põe estribo em rédea curta quando assim se impõe. O amor também é isso. O findar. A aguardente é, de facto, mais do que uma bebida, é um fragmento líquido da história e da alma do português, substrato que convida à meditação e à prosa poética. E eu, nestes longos anos, bem lhe tenho puxado o lustro, por seca e meca.
Permitam-me servi-los, com o maior apreço, com este meio-quartilho no copo, destilados os pedidos em palavras, essa profunda reflexão sobre a vida, o prazer e a questão fundamental do existir, a existência e o seu sentido, dramática, poeticamente intensa e essa metáfora contrastada com a ideia de desistir do existir. A pergunta premente não é sobre a digestão, mas sobre a justificação de um apetite que, em última análise, se sabe insaciável.



A aguardente, esse final ardente e espirituoso, surge não como mero digestivo, mas como superação, arrematar a transcendência fugaz, ou, talvez, uma leve embriaguez que adie a confrontação com o absurdo dos dias corridos a esmo.
Neste proscénio feérico da Beira, onde o granito e a pinha moldam o terroir, as aguardentes partilham a herança vitivinícola. Bailam por aí, mais furtivas que assertivas e eu nessa inquietação do singelo, afinal, é apenas o espírito nobre do vinho, destilado a partir de mostos ou vinhos, preferencialmente brancos, com baixo teor alcoólico e elevada acidez. Todos a bailar, o beber pede envelhecimento, madeira e fumo. Ambarina, arnica, xopito, xiripiti, e estive em mesa de abades que me explicaram todas as distinções, incluindo nelas o cheirinho, o shot e até o dedal e a unha, esta nos tempos de tuno, que nunca o fui, mas nele carreei livros e saber.



Uma aguardente é o caminho da elegância, o finar do repasto, o aperitivo tardio para o jantar que se avia, o complemento à digestão, uma filosofia epicurista. Nascida do bagaço, cascas, grainhas e engaços das uvas fermentadas. É a aguardente do povo, da tradição mais crua. Jovem, envelhecida, clandestina, ilegal por ser de casa.
Ardente, frutada, rusticamente aromática, amaciada nas voltas do tempo, eis a minha alma nos seus devaneios e conflitos, incluindo esse, o de fugir à circunscrição, para atilar a barriguinha.



A identidade destas aguardentes está intrinsecamente ligada à Região Demarcada do Dão, a mais antiga dos vinhos tranquilos. Quintas e adegas, onde a destilação dos excedentes vínicos era uma forma de economia circular e preservação. Destilarias artesanais, por estes dias são as que me fascinam, mas não fujo às grandes adegas. A verdade levou-nos da produção rústica para um produto de certificação controlada.
Alquimia, tempo, madeira e repouso. No vidro, o meio-quartilho resplandece, um âmbar líquido que roubou a luz do sol das vindimas. Reclama fumo, tabaco, paciência que abonde. Um fogo lento que se acende na garganta no generoso abraço do espírito amadurecido. Velhice, também cabe, escorrega com a memória do Verão, a força ancestral da vinha. O copo, aquecido pela mão que o acalenta, liberta essas notas, recônditas. A aguardente é sempre sincera.









