Foral de Silgueiros Tinto 2021 – II


Publicado por:

a

em

Foral de Silgueiros Tinto 2021 – II

A distribuição não deixa de nos surpreender, contudo, a tecnologia deita-lhe a mão. Este vinho passou nestas páginas em 31 de Janeiro, quando o voltei a inserir para dar nota da prova, recebi o alerta. E que faz um vinho voltar à prateleira 12 meses depois?

Terá ficado esquecido no armazém? Falha da logística? Insistência para escapulir stocks?

Confesso-vos que o trouxe do supermercado, vindo de uma conferência de enoturismo com sede de vinho bom, para embalar uma chouriça, que assei no forno e umas fatias de queijo amanteigado que acompanhei com broa. E que me diz o vinho quase um ano depois da prova inicial?  O Foral de Silgueiros 2021 é um exemplar clássico do ‘Novo Dão’, mantém a frescura tradicional da região, mas com uma fruta mais expressiva e taninos muito polidos. Cor rubi definida e brilhante, com reflexos grená, num vinho muito aromático e limpo. Na frente do regimento, frutas vermelhas frescas, um toque floral discreto e uma pontinha mineral que lembra caruma de pinheiro. Eis o meu Dão. Na boca, a palavra-chave é equilíbrio. Não é um vinho pesado; tem uma acidez vibrante que limpa o paladar. Os taninos são macios, não arranham, proporcionando uma textura sedosa e um final médio a longo, muito agradável. Agradável para quem precisa de uma refeição ligeira, antes de voltar à secretária da escritaria. Este vinho brilha à mesa porque a sua acidez ajuda a cortar a gordura de pratos mais ricos sem sobrepor o sabor da comida.

Produzido pela Adega Cooperativa de Silgueiros, importou em 3,50 euros, com um lote de Touriga Nacional, Jaen e Tinta Roriz. Monta-se aos 13% de volume, normal em vinho da sub-região de Silgueiros, típico de um vinho equilibrado, não sendo excessivamente pesado ou quente, corpo médio, com taninos presentes, mas suaves, e uma acidez refrescante que o torna muito gastronómico. Um achado nos insondáveis desígnios da distribuição, uma análise muito interessante e toca no ponto de quem gosta de observar como o vinho vive e respira. Beber o mesmo vinho com quase um ano de intervalo permite-nos ver o filme da sua evolução, em vez de apenas uma fotografia. Em Janeiro: O vinho era dominado pela frescura e talvez por taninos ligeiramente mais rudes, em Dezembro: Passaram-se quase 12 meses. No Dão, este tempo em garrafa costuma ser mágico, a acidez estabiliza, os taninos poliram-se, mais redondos e aveludados e a fruta, que era fresca e ácida, tornou-se mais madura e profunda. O vinho agora está muito mais integrado e equilibrado.

Sobra a dúvida, o facto de ainda encontrar a colheita de 2021 no final de 2025 revela alguns aspetos da distribuição atual em Portugal, o setor do vinho tem enfrentado grandes desafios de escoamento. Muitas adegas cooperativas viram os seus stocks acumular-se devido à quebra de consumo e à inflação. Isto faz com que colheitas mais antigas permaneçam nas prateleiras dos supermercados por mais tempo. Para o consumidor, isto é, muitas vezes, uma sorte, um vinho que já fez o estágio de garrafa no armazém ou na loja, em vez de o ter de guardar em casa. No caso do Dão, um vinho de entrada com 3 ou 4 anos, está frequentemente no seu ponto ideal de consumo. Sim o vinho agora desce melhor, já se deixa beber sozinho ou com um petisco mais simples. Não foi um erro, foi uma oportunidade, beber o vinho em duas fases distintas da sua vida. Se ainda encontrar mais garrafas de 2021, aproveite, estão no auge da forma.

Carrinho0
Não há produtos no carrinho!
Continuar a comprar
0