Índio Rei Encruzado 2019 Grande Reserva


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Índio Rei Encruzado 2019 Grande Reserva

Eis um exemplar de excelência da região do Dão, um Grande Reserva de 2019, que já por aqui passou em Julho, mas que escolhi para entrada neste período de festas e que me permitiu analisar melhor uma tecnologia que a garrafa, de bom vidro, apresenta no vedante, na rolha se preferirem. Um branco mineral, complexo, untuoso, feliz e de muito boa acidez que lhe dá estrutura.

Uma escolha de uma elegância quase poética, se me permitem, harmonizado este Índio Rei Grande Reserva com salmão fumado, carne firme e sabor rico, vindo de salmões criados nas águas frias da Noruega, sendo fumado a frio com madeira de faia para um toque subtil de fumo, um encontro entre a sobriedade da montanha e a fluidez do oceano. Uma leitura filosófica, na busca da dialética do palato. O Encruzado, sendo uma casta de estrutura firme e acidez vibrante, atua como um elemento de clareza face à untuosidade do salmão. Enquanto a gordura do peixe envolve a boca, a mineralidade deste vinho do Dão limpa os sentidos, preparando-os para a próxima garfada. É um diálogo constante entre a opulência e a frescura.

O vinho, que custa 42 euros a botelha e que em muitas garrafeiras é dado como esgotado foi uma cortesia da Susana Melo, CEO da Amora Brava, que me chegou em bonita caixa. Volto ao salmão, com a sua cor rosada que evoca o pôr do sol, a matéria rica e terrosa. O vinho, com o seu estágio e alma de 2019, traz a luz e o sopro intelectual do Dão. Beber um vinho que homenageia o primeiro índio na arte europeia enquanto se consome um peixe que atravessa correntes para regressar à origem, fecha um ciclo simbólico de eterno retorno.

O Encruzado, é a casta rainha das brancas do Dão. Esta uva é filósofa por natureza, nasce austera, mas evolui com o tempo para uma complexidade profunda, revelando notas minerais e uma longevidade que poucos brancos no mundo alcançam. Elaborado por Carlos Silva, enólogo que partilha conhecimento – e ainda ali tenho nos livros de mão uma tese de 2008 sobre a atribuição DOC, este é um vinho que proporciona uma experiência fresca e aromática. As notas de madeira surgem num primeiro impacto aromático, só depois aparecendo a fruta, um tom citrino e notas florais que ganha em ser decantado e servido nos 8ºC, para amaciar os 13% de volume que exibe com garbo. 

No Dão, um Grande Reserva Branco é um vinho DOC de qualidade superior, com características organolépticas destacadas, sabor, aroma, complexidade e um título alcoólico mais elevado, que passou por um estágio mais longo em barrica, resultando em maior sofisticação, elegância e frescura, sendo atestado pela Comissão Vitivinícola da Região do Dão, com base em critérios específicos de avaliação sensorial e qualidade, segundo a regulamentação em vigor que, nesta matéria, dá outros prelos ao bebedor.

A surpresa, que me inquietou – que a ignorância é atrevida e não abri a garrafa da primeira prova no último Verão, chegou da rolha. O vedante é uma tampa de cortiça aglomerada com cabeça de plástico, produzida pela Amorim Cork, a maior empresa de cortiça do mundo, sediada em Portugal. É de cabeça arredondada e transparente, rolha do tipo Top Series, personalizada, os grafismos de folhas que lembram louros ou ramos de videira. Veda a garrafa por pressão, permitindo que o consumidor abra e feche a garrafa várias vezes, mantendo a proteção contra a oxidação por um período curto. A tecnologia de cortiça aglomerada garante ainda que o vinho esteja livre de TCA, o aroma a rolha, protegendo a pureza da monocasta Encruzado.

Mesmo este pequeno cilindro de cortiça carrega a epifania do tempo, levou anos para a árvore crescer, passou por processos industriais de alta precisão e é o último guardião de um sabor que levou anos para maturar., o que faz deste vinho mais do que uma bebida; é um manifesto cultural engarrafado, onde a história da arte portuguesa se cruza com a modernidade técnica. A anatomia completa deste Índio Rei Grande Reserva 2019 evoca um lampejo histórico, a obra “Adoração dos Reis Magos”; 1501-1506; do renascentista Vasco Fernandes, o nosso Grão Vasco, onde, pela primeira vez na pintura europeia, um dos Reis Magos é representado como um índio brasileiro. É o vinho da alteridade. Celebra o momento em que o ‘Eu’ europeu reconheceu o ‘Outro’ americano. Beber este vinho é participar de uma bandeira e mensagem de paz, adequada ao dia, como diz o contrarrótulo, é um “Presente do Rei”, uma mística na ideia de que o Rei, ou o poder, se curva perante o Índio, a natureza e o novo, tudo mediado pelo sangue da terra, o vinho.

Foi uma experiência de plena consciência, mindfulness como agora se diz, em que o vinho simplesmente fluiu como parte da conversa. Este vinho é uma ponte entre o pincel de Grão Vasco e o copo de quem o bebe.

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