A Quinta de Vale do Cesto ensina-nos caminhos. O Produtor, de Oliveira do Hospital, onde já estive, tem no mercado um bag, com vinho DOC Dão. Custa sete euros, pode embalar com a campanha digital contra o vinho martelado e, sim, não há desculpas para bares e restauração não terem vinho de serviço. Da Região. Do Dão. Num mercado muitas vezes inundado por vinhos de origem duvidosa, muita parra e pouca uva, a Quinta Vale do Cesto teve a mestria de ocupar um espaço vazio. Ao colocar o seu DOC Dão em formato Bag-in-Box, o produtor não está apenas a vender vinho; está a fazer um ato político e pragmático. Vinho de serviço com rosto: É a prova de que a restauração e os bares da Região Demarcada não têm desculpa para não servir qualidade. Ter um vinho de entrada, focado na frescura e no consumo jovem, disponível num formato prático, permite que o comerciante tenha rendimento e o consumidor tenha verdade. E momentos.



A Quinta Vale do Cesto é um projeto familiar de referência na região do Dão, sub-região do Alva, em Oliveira do Hospital. É propriedade do empresário António Figueiredo, que administra a salsicharia tradicional Serra d’Alva e entregou a enologia a António Pina. A quinta destaca-se por estar situada a uma altitude de 500 a 600 metros, solos graníticos e uma forte influência da Serra da Estrela. Um dos grandes tesouros da casa são as vinhas centenárias, que dão origem aos vinhos de topo. O cenário é de uma beleza crua. Ali, o encepamento é um diálogo entre o tempo e a técnica. Do que vi e me recordo, trabalham as clássicas do Dão como a Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen e Encruzado, mas também mantêm misturas de campo nas parcelas antigas, o anglicismo, que não fica mal na hora de vender, field blends.



A Quinta Vale do Cesto foca-se predominantemente no mercado de vinhos engarrafados de qualidade, DOC Dão. Mas soube aproveitar uma falha no mercado e lançar a marca principal ‘Quinta Vale do Cesto’ ao bag. Sabedoria e maestria do produtor que tem quatro marcas, a que nos importa, Vale do Cesto, gama de entrada, focada na frescura e consumo jovem. Depois há Muros Vadios, Alva Magna e o topo de gama, Quinta Vale do Cesto Grande Reserva, feito apenas em anos de exceção, com estágio prolongado em barrica. O portefólio inclui vinhos dos 6 aos 40 euros e ter um bag Dão é vantagem, pelo rendimento que deixa no comerciante e no escoar de vinhos de qualidade.



É, no fundo, a vitória da produção regional sobre o facilitismo. É um vinho que não precisa de adornos porque tem a espinha dorsal do Dão. E, dizem-me, mas ainda não os vi, que a Quinta de Penassais também os coloca em venda. Não se percebe, pois, a sanha de certa restauração e bares em afastar uma boa ideia, prática e eficaz, para termos de costume, bom e de boa conta, vinho de serviço. Da Região. Como os outros fazem, com sucesso e como nós temos que fazer, para que os euros entrem na adega.
A Quinta Vale do Cesto, vocacionada para a garrafa de vidro e para o envelhecimento, soube ver oportunidade. E dar-nos um vinho bom. E honesto. O que não é de somenos.
(fotos dos bib via António José Pereira)






