Meia Serra Encruzado 2023


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Meia Serra Encruzado 2023

Em conversa, no imponente Solar do Vinho do Dão, com o peso da história a envolver as paredes de pedra, senti que o momento pedia algo que estivesse à altura da ocasião. Estávamos ali para celebrar a tomada de posse do Manuel Pinheiro na Comissão Vitivinícola do Dão, e foi este Meia Serra Encruzado 2023 que me escolheu para marcar o ritmo da tarde, chuvosa e de ventosa. Entre produtores, enólogos e jornalistas, a conversa fluiu, mas o meu espírito voltava, repetidamente, ao copo. E à mesma garrafa. Tive com ele uma conversa singela, sozinhos no meio das muitas pessoas. Há que decifrar o que nos vem ao palato.

Ao rodar o vinho, a sua cor citrina captou a luz que entrava pelas janelas do Solar, já num lusco-fusco de tons quentes, revelando uma limpidez aristocrática. Aromaticamente, o encontro é complexo e magnético, um despertar de sentidos onde notas elegantes de flor de laranjeira e lima se entrelaçam com uma baunilha nobre, fruto de um estágio em barrica feito com mãos de veludo. É a pureza da casta Encruzado a surgir aqui despida de artifícios, num equilíbrio magistral entre o frescor vibrante da fruta tropical e esses aromas discretos, quase sussurrados. Como a conversa.

Na boca, este branco revela-se uma verdadeira ode à elegância beirã. Com uma textura cremosa e envolvente, é um vinho estruturado, tenso e profundamente mineral, onde o granito das encostas parece palpitar em cada gole. Senti uma acidez elétrica, mas domada, que realça a sua frescura e se funde numa textura sedosa, deixando um final longo, persistente e cheio de dignidade, tal como o protocolo da cerimónia exigia.

Este vinho chega-nos pela Casa Santos Lima, uma empresa familiar com cinco gerações de história que, embora tenha o seu coração na Quinta da Boavista, em Alenquer, estende hoje os seus braços por várias regiões do país. No Dão, aproveitam a proteção das serras contra os ventos do Atlântico e a nobreza dos solos graníticos e xistosos. Contudo, ao procurar mais fundo, resta uma nota de mistério, o site do produtor limita-se a descrições genéricas da região, deixando-me sem saber a localização exata das vinhas ou a origem específica destas uvas. E isso importa ao consumidor. Muito.

Foi, ainda assim, mais do que uma prova; foi um encontro. Um vinho gastronómico e solene, que transporta em si a alma das serras e a frescura dos vales, transformando aquele brinde oficial num momento de pura poesia líquida.

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