Gosto deles com tempo, de repouso e no beber. E, por norma, não sou eu que os escolho, a presunção fica comigo; as mãos sábias, essas, são da Anita, que disto do nariz tem-no perfeito. Dito isto, arejei e esperei. E surpreendi-me.


Cada vez mais aberto aos vinhos de altitude, e sendo o produtor homem sábio e sensato, o que por si só é garantia, uma década depois ei-lo vibrante, conciso e muito gramático no beber, de boa semiótica. Estudar a significação que o vinho nos traz não é trendy, como soe dizer-se; será antes mania de cinquentenário. Veio de segundo vinho; do aperitivo falarei mais adiante, noutros dias. Robusteceu um fecundo jantar de arroz de pato e carnes grelhadas. E sim, no aroma, toda a mineralidade e a acidez, bem conservadas, engarrafadas ali à minha espera, por quatro euros e meio na garrafeira.

Este Pinhanços 2016, nascido no sopé da Serra da Estrela, a 550 metros de altitude, traz consigo a alma granítica e a frescura do Dão. A Quinta da Pellada é uma das propriedades mais emblemáticas da região e está intrinsecamente ligada à figura de Álvaro Castro, um dos produtores mais respeitados e influentes do país. A família é proprietária da quinta desde o século XVIII; há ali muita sabedoria e paciência com o tempo guardadas.


Na prova, dispensei o decanter — não me pareceu necessário. Topei-lhe a estrutura, conferida pela Touriga Nacional e pela Tinta Roriz, aliada à elegância do Alfrocheiro e à suavidade do Jaen: um diálogo perfeito com o prato, num lote clássico, mas sábio. No aroma, a mineralidade e a acidez bem preservadas; na boca, frescura e precisão.
Um achado que prova como a sabedoria do produtor e a paciência do tempo podem entregar uma experiência de luxo por um valor quase simbólico. Não sei se saiu agora para o mercado ou se são desses tesouros que mãos sábias procuram por mim, com o enlevo de saber o que aprecio.
Sendo de 2016, vale a pena deixá-lo respirar 20 a 30 minutos antes de servir, para perceber todo o detalhe que a garrafa carrega. A cada copo, liberta novos aromas e, sendo de entrada de gama, não deixa de ter algo de feudal. Clássico e intemporal, é um vinho elegante, onde a fruta vermelha madura convive com notas minerais e um toque vegetal seco — diria adstringência, não fora o receio de que os fundamentalistas apontem o dedo à escrita e não ao copo. Na boca, fresco, com taninos finos e um final longo e persistente.



O Pinhanços é visto como excelente porta de entrada para o estilo do produtor, menos focado na madeira e mais na frescura e na identidade da terra. Em 2016, encontrei-o num momento fantástico para ser bebido: já teve tempo de acalmar na garrafa, mas a acidez característica do Dão mantém-no vivo. E duraria mais, não fora uma sede loquaz e o singelo prazer de ver a família reunida à mesa.






