Cada vez mais me interessam os vinhos vindos da sub-região da Serra da Estrela e a Seacampo tem bons vinhos a preços regulados de acordo com a nossa bolsa. Por outro lado, não pedem mais que um copo alto e largo, um respiro de meia hora e apronta-se às beiças que é um regalo. Esta não é apenas uma descrição técnica, é uma liturgia, um fragmento de geografia engarrafado. Se a pinga é o corpo, o Dão de altitude é a alma.
E, como de costume, a cada garrafa provo-a a solo. Esqueçamos então os inventários, que o vinho, quando é de alma, mede-se em fôlegos. Beber este Naco Reserva 2022 é, no fundo, comungar com o granito da Serra da Estrela, aquela pedra antiga que o sol de Agosto tentou castigar, mas que a altitude salvou com o seu sopro frio de madrugada. Há uma dignidade silenciosa nesse tinto da Casa Américo, algo de profundamente democrático e honesto. Ele não pede vénias de salão nem decantadores de cristal lapidado; pede apenas o tal copo largo, o espaço necessário para que a Touriga Nacional se desprenda da sua clausura e nos conte histórias de flores roxas e mato seco.
Filosoficamente, este vinho é o triunfo da resiliência sobre a canícula de um ano seco. É a prova de que a elegância não precisa de ser cara para ser verdadeira. A Tinta Roriz dá-lhe o corpo, a estrutura de quem sabe estar à mesa sem atropelar a conversa, enquanto a Jaen, essa casta que é a frescura em estado líquido, assegura que o gole nunca pese, que a alma se mantenha leve. É um vinho de beiças, porque convida ao toque, ao prazer imediato do rubi que brilha na penumbra da sala.


Entremeámos o primórdio com dois lacticínios, um serrano e outro ibérico, um folar com um travo de canela e umas rodelas de um embutido ibérico. E para que o granito da serra não se sinta solitário na sua rudeza, trouxemos o Atlântico à mesa numa massada de gambas generosas e um punhado de berbigões que, ao abrirem, soltam o hálito salgado do abismo. É um casamento de contrastes onde a elegância ácida do Naco Reserva 2022 corta a doçura untuosa do marisco, criando um diálogo improvável, mas perfeito entre a crista da montanha e a espuma da onda. O tinto de altitude, com a sua frescura de 600 metros, não se deixa intimidar pelo iodo; pelo contrário, envolve o berbigão e a massa num abraço de fruta preta e tanino polido, provando que, quando o vinho tem alma de Dão, o mar e a serra podem finalmente sentar-se à mesma mesa e brindar em absoluta harmonia.


Não há aqui a soberba dos grandes rótulos que se guardam para um depois que nunca chega. Este é um vinho do agora, um presente da Seacampo que respeita a bolsa mas eleva o paladar. É a poesia do quotidiano, escrita em solo granítico, altitude onde o ar é mais puro e a verdade da uva não se perde em artifícios de adega. No final, o que fica é a memória de uma cereja madura e o rasto de um tanino polido pela paciência, um final seco que nos deixa a pensar que, afinal, a felicidade pode custar menos de dez euros e caber inteira num copo de pé alto.






