Está pujante, novo e irreverente. A macieza do tempo haverá de lhe outorgar boa sanha, falta-lhe, ainda, o correr do tempo, para ganhar profundidade e complexidade e se lho dermos, o tempo, tem tudo para ser memorável.
O que está dentro desta garrafa diz muito sobre o Dão contemporâneo e também sobre a forma como a região se apresenta ao mercado. O Quinta de Carvalhiços Reserva Branco Encruzado 2024 nasce na órbita da Fundação S. José, um produtor com uma identidade pouco comum, institucional, com raízes sociais, mais preocupado com consistência e representação do território do que com a aura exclusiva dos pequenos projetos de autor.


A colheita de 2024 surge num contexto típico do Dão, maturações equilibradas, acidez preservada e uma expressão relativamente limpa da casta Encruzado, talvez a mais nobre das brancas da região. Aqui, a opção enológica é clara, fermentação maioritariamente em inox, a baixa temperatura, para fixar aromas e frescura, com um toque discreto de barrica a dar alguma estrutura. Nada exuberante, nada experimental, técnica ao serviço da previsibilidade.
No copo, o vinho confirma essa abordagem. Apresenta-se com notas de pera e maçã fresca, um registo floral contido e um leve apontamento mineral. Na boca, há volume suficiente para não ser banal, uma acidez bem medida, sem arestas e um final limpo, elegante, mas sem grande prolongamento. É um vinho que se prova com facilidade, sem exigir atenção excessiva e sem deixar marcas profundas.
E é precisamente aqui que reside o seu lugar. Este não é um branco para impressionar connaisseurs nem para figurar em provas cegas memoráveis. É, isso sim, um vinho honesto, bem feito, que cumpre o papel de mostrar o Dão a um público mais alargado. Um vinho da mesa, não confundir, no melhor sentido da expressão, acompanha, não domina; agrada, não desafia.
No mercado, posiciona-se na faixa dos 10 a 12 euros, o que reforça essa leitura, boa relação qualidade preço, que chega aos 20 euros na restauração, mas sem pretensões de topo. Estamos perante um vinho pensado para circular, não para colecionar.
No fim, fica a sensação de um branco competente, afinado e fiel à casta, mas contido. Num Dão que hoje também sabe ser ambicioso e surpreendente, este Quinta de Carvalhiços Reserva Branco 2024 escolhe outro caminho, o da segurança, da regularidade e da utilidade. E, por vezes, isso é exatamente o que se quer à mesa. Porém, não se engane com a sua facilidade atual. O que vemos agora é apenas o prólogo. A macieza do tempo haverá de lhe outorgar uma “boa sanha” — uma força sábia e domada. Como um jovem talento que precisa de silêncio para se tornar mestre, este branco pede o escuro da cave.



Mas, pelo sim, guarde umas garrafas, para se surpreender daqui por uma meia dúzia de anos. Há uma beleza profunda na paciência. Ao guardarmos algumas garrafas desta colheita de 2024, estamos a apostar na virtude do amanhã, quando o tempo terá polido as arestas, preenchido os vazios e dado a este reserva honesto a profundidade dos vinhos memoráveis. O Dão tem este segredo, sabe envelhecer com uma dignidade aristocrática. O que hoje é segurança e regularidade, com o passar dos invernos, transformar-se-á em sabedoria líquida. Nos entretantos beba uma garrafa hoje para celebrar a vida como ela é, franca, fresca e direta. Como esta botelha.






