Bebi-lhe um branco inesquecível. Vinho branco de 2021, Lafões, já sobram poucas garrafas, mas o de 2025 promete envelhecer da mesma forma, por enquanto é jovem, floral, mineral, fabuloso. Uma Comenda. Cheguei-lhe pela Nacional 16, empolgado por recordar uma das estradas da minha infância. Na Quinta do Gato, a mina tem as vinhas por cima e é um regalo. Para os pés e para a vista. Para o palato também. Lá iremos, agora vamos conhecer esses vinhos de Lafões que estagiam numa mina de granito.



Há vinhos que envelhecem em cave. Outros repousam em barricas. E há um vinho português que passa um ano submerso nas águas frias e silenciosas de uma mina de granito. A história da quinta começa muito antes da primeira garrafa. Depois de vários anos a viver na Suíça, na região vitivinícola de Lavaux, Celeste Bento e a família regressaram às origens, em Lafões. Inspirados pela cultura do vinho que conheceram naquele país, iniciaram, no final da década de 1990, a plantação da vinha. Foram anos de aprendizagem, experimentação e definição de um perfil vínico próprio, até ao nascimento, em 2021, da marca Lugar do Gato.


A propriedade ocupa cerca de 2,5 hectares de vinha, instalada em socalcos a cerca de 320 metros de altitude, na encosta soalheira do rio Troço, afluente do Vouga, a poucos quilómetros das Termas de São Pedro do Sul. As castas escolhidas refletem a identidade da região: Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro e Tinta Roriz, às quais se juntam antigas cepas centenárias destinadas aos vinhos brancos. Foi uma Prova Vertical dos vinhos brancos Lugar do Gato – colheitas de 2021 a 2025.
A visita iniciou-se na vinha, onde os participantes contactaram com a encosta granítica da propriedade e com o enquadramento natural que influencia diretamente a identidade dos vinhos da Quinta do Gato. Seguiu-se a apresentação do projeto, centrada na ligação entre território, tempo e vinho, com particular destaque para a intervenção técnica do enólogo António Pina, responsável por conduzir os convidados através das diferentes etapas do processo produtivo, desde a vinha até à garrafa, contextualizando as opções enológicas que definem a identidade dos vinhos Lugar do Gato.



Para Paulo Páscoa, gestor do projeto, o encontro “destinou-se à afirmação do projeto Quinta do Gato Enoturismo e à divulgação de Lafões como destino vitivinícola de qualidade, com identidade e potencial de crescimento”.
Uma família de vinhateiros que anota o desaparecimento da Cooperativa de Lafões como o catalisador para o aparecimento de novos produtores. A conversa decorre num terraço, um miradouro para o vale de Lafões, ali mesmo, na borda da Nacional 16.
O projeto procura afirmar a identidade das Terras de Lafões, uma sub-região que, durante décadas, permaneceu na sombra de outras zonas vitivinícolas do Centro do país e que começa agora a afirmar-se através de pequenos produtores, produções limitadas e uma forte ligação ao território.
Na Quinta do Gato, essa ligação faz-se literalmente entre a superfície e o subsolo. Da vinha nasce o vinho. Da antiga mina nasce uma segunda forma de o deixar amadurecer. Um percurso improvável que transforma uma antiga galeria de granito num dos locais de estágio vínico mais singulares. Por lá iremos, antes António Pina, o enólogo, diz-nos que “esta é a melhor encosta de Lafões”.
A poucos metros da vinha existe uma antiga mina granítica alimentada por água pura, cuja temperatura permanece praticamente constante durante todo o ano.



Foi ali que os responsáveis pela Quinta do Gato decidiram experimentar um método de estágio pouco comum. Depois de doze meses em barricas de carvalho francês, parte da produção do Lugar do Gato Reserva 2022 seguiu um destino diferente. As garrafas foram totalmente submersas na mina, permanecendo durante mais doze meses em completa escuridão, rodeadas por água e sujeitas a uma temperatura naturalmente estável. O resultado recebeu o nome de Gato da Mina.
O encontro contou com Manuel Pinheiro, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, que se fez à mina e para quem “Lafões, hoje um denominação com a tutela da CVR Dão, acrescenta valor à região”.
Os próprios rótulos das garrafas contam a história desse gato, que se escapuliu para parte incerta. Vamos à prova, o meu favorito, ainda mal o sabia, foi o de 2021.






De 2021 não há mais, mas o branco de 2025 promete, e já o é, promete, afianço, ser enorme, com apenas dois meses em garrafa.
Os tintos resultam de um lote de Touriga Nacional, Jaen e Alfrocheiro, fermentado em lagar, estagiado durante um ano em barrica de carvalho francês e outro ano na mina granítica.
A Quinta do Gato trabalha com produções reduzidas e nos brancos, a aposta recai nas cepas centenárias, de onde nascem produções muito pequenas, algumas inferiores a quatro centenas de garrafas, marcadas por forte mineralidade e acidez natural, características tradicionalmente associadas aos vinhos de Lafões.




A gama inclui ainda um rosé produzido maioritariamente com Touriga Nacional e Tinta Roriz provenientes de vinhas antigas. Em breve sairá daqui um borbulhante espumante, para já esse projeto de enoturismo com percursos pela vinha, provas comentadas, experiências gastronómicas e, naturalmente, a possibilidade de conhecer a antiga mina onde repousa o Gato da Mina, uma experiência invulgar.
Voltarei, para provar esse Alfrocheiro, monocasta, que me ficou no olhar.







