Das terras altas e xistosas do Dão, brotou o veredito da 17.ª edição do concurso “Os Melhores Vinhos do Dão”, uma celebração litúrgica onde o suor do viticultor se transforma em poesia líquida. E ruos. O grande colosso da noite, coroado com a distinção suprema de “Melhor Vinho a Concurso 2026”, foi o Morgado de Silgueiros Touriga Nacional 2023, uma obra-prima da Adega Cooperativa de Silgueiros que não é apenas um vinho, mas uma sinfonia engarrafada, um néctar sublime que captura a própria alma da região.



O veredito foi anunciado ontem à noite, durante um faustoso jantar de gala e entrega de prémios organizado pela CVR Dão no Museu do Vinho e das Artes, em Santar. A atmosfera ali respirava uma reverência quase sagrada, reunindo a nata dos produtores e especialistas num reencontro com a própria identidade da terra. A edição de 2026 foi verdadeiramente histórica e monumental, quebrando todos os recordes ao convocar 41 produtores e 176 referências, números que provam que o Dão não é um setor estagnado, mas um organismo vivo, pulsante e em constante metamorfose criativa. E, anoto, a sofisticação. Precisamos desse cosmopolitismo.



Na categoria das cobiçadas medalhas de Platina, reservadas à excelência absoluta e intocável, a Casa da Passarella brilhou intensamente com duas obras de arte de lote: o Abanico Reserva Branco 2024, um sopro de frescura e elegância, e o Villa Oliveira Tinto 2017, um ancião sábio de estrutura profunda. Nos monovarietais, onde a uva fala a sua verdade mais pura e despida, triunfaram o Rarríssimo by Osvaldo Amado Encruzado, da Casa dos Amados, e o já divinizado Morgado de Silgueiros Touriga Nacional 2023. Para fechar este Olimpo, a efervescência festiva do Cabriz Espumante Bruto 2020 garantiu a Platina na sua categoria.




O panteão dos Grandes Ouros também se revelou sumptuoso, premiando tintos de lote de uma densidade e complexidade fascinantes: Cabriz Edição Especial 2018, Abanico Reserva 2023, Castelo de Azurara Grande Reserva 2017, Caminhos Cruzados 2020, Tazem 2022 e o orgulhoso Morgado de Silgueiros Reserva 2023. Nos monovarietais, o ouro reluziu para o Sequoia 37 Grande Reserva Encruzado 2024 e para o telúrico Castelo de Azurara Grande Reserva Alfrocheiro 2020.

Estes néctares foram eleitos por um júri cirúrgico e multifacetado de jornalistas, sommeliers, produtores e enólogos. O presidente do júri, Luís Gradíssimo, enalteceu a consistência granítica e a qualidade impressionante dos concorrentes, sublinhando que o Dão tem a capacidade rara de desenhar perfis únicos e altamente competitivos no tabuleiro global. Manuel Pinheiro, timoneiro da CVR Dão, sintetizou o espírito do evento ao afirmar que estes recordes espelham uma ambição indomável: o Dão inova sem esquecer a sua herança, mostrando que o vinho é o espelho do terroir e o veículo do futuro. Emocionado, Fernando Figueiredo, presidente da adega vencedora, concluiu que este prémio é a prova de que a dedicação molda o destino, assumindo o compromisso eterno de continuar a surpreender os palatos mais exigentes. A lista completa dos gloriosos vencedores pode ser consultada aqui e mantém a hiperligação. Cá eu, em bolandas lá no Técnico a botar faladura em nova cátedra, sou um privilegiado por ter provado as tourigas. Às cegas, que não haja equívocos. E, talvez aqui, o meu reencontro com sua mercê. Tenho que me apaziguar.






