Flor D’ Penalva Branco 2024


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Flor D’ Penalva Branco 2024

Bebi-lho assim, na flor da frescura e da meninice, embalado por estes 55 anos que já me pesam nos ossos e me cantam na memória. Fiquei-lhe a namorar o viço e aquela acidez irrequieta, de fruta viva que estala na boca ao primeiro gole. Um branco extraordinário da Beira Alta, sem dúvida — bem sei que a etiqueta o modera como um simples começo de gama desta colheita de 2024, vindo direto das terras de Penalva do Castelo com os seus cordiais 12,5% de álcool, mas nesta vida o que vigora, reina e manda é mesmo o palato. E melhor ainda quando nos entra em casa a um preço verdadeiramente amigo, 6,40 euros que, com as promoções e reduções de preços nas grandes superfícies se encontra por pouco menos de quatro euros, assim o justo chegue ao lavrador.

Honra seja feita à Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, essa casa matriz encravada no coração do Dão que há décadas dá guarida ao esforço e à sabedoria dos lavradores da terra. É ali que lateja a identidade do Flor de Penalva e da histórica sub-região de Castendo. Falamos de um território abençoado e agreste, onde os rios Dão e Ludares recortam o granito e criam um microclima de altitudes bem vincadas. Em Castendo, as noites frias de montanha e os dias quentes de verão abrigam as vinhas numa espécie de redoma natural, fazendo com que a uva amadureça devagar, concentrando aromas e retendo uma frescura mineral que é património exclusivo destas encostas. Entre a paciência do lavrador e o feitiço do solo castendense, molda-se o verdadeiro carácter beirão. Um Dão honesto, enxuto, de boa cepa. E guloso, muito guloso. Dançou com uma massa de camarão e coentros frescos e deu-se muito bem com o encómio.

O segredo do encanto deste branco reside no casamento engenhoso do lote que ali engarrafaram. Tem a postura nobre e a elegância subtil da Malvasia-Fina, temperada pela vivacidade escorreita de um Cerceal-Branco que espeta no lábio e acorda o juízo. A rematar a trindade, surge o diabo do Borrado das Moscas, baptismo velhaco para uma uva que de borrada nada tem, talvez a pinta, antes limpa a alma e deixa um rasto de mineralidade reluzente no palato. Um vinho que nos prova, sem espavento, como o saber-fazer da gente de Castendo e que nos estende a tarde e nos impõe o namoro e a conversa. Escorreita. Como o Branco.

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