Nos tempos em que arrancou o ‘Jornal do Centro’, e eu por lá oficiava como correspondente, às terças-feiras descia da Guarda e vinha ao fecho da edição. Por volta das noites, ala à Avenida Emídio Navarro, amesendar no Casablanca. Sim, o restaurante é mais antigo, também por lá ia quando fui funcionário do extinto Serviço Nacional de Bombeiros. Nos intermezzos, acrescentou uma sala e manteve-se fiel ao Vinho de Penalva, sem as manias de alterar o rótulo. Encostas de Penalva é vinho de serviço e é bom. Ora hoje, de promenade, perante um cheio e outro encerrado, voltámos a um poiso em que passam os anos e a comida é sempre boa. E a preços justos. Uma açorda de gambas, uns nacos de vitela e um bife picado, mais uma botelha, largámos 60 euros por um serviço exemplar, atento e competente.



A dita Casablanca, assentada no Passeio de Emídio Navarro, rompeu em luz no ano da Graça de 1988, e até aos dias de hoje persevera no lavor do peixe do mar e do crustáceo. O seu cardápio desfolha-se em guisados de arroz de mariscada, cataplanas, a dita Sinfonia do Mar, o assado de Terra e Mar, mais o crustáceo, percebes, ostras, sapateira e peças de escama. É, pois, albergaria de quase quatro décadas de proveito e nomeada gastronómica nestas terras de Viseu.
Viu a luz em 1988, quando a gente da terra inda olhava com desconfiança e espanto o comer de bom peixe em serra tão alta. Passados quase quarenta anos, a peleja fez-se costume e respeito. E o Casablanca prossegue na sua arte primeira, pôr as farturas do oceano sobre as tábuas da mesa sem mover um palmo de chão às suas fundações.
O rol de comeres não folga com artes nem novidades do século. Há bicho de casca, peixe de corte, arrozes caldosos, cataplanas de metal e pratos de tal merecimento que ganharam nome de baptismo. A chamada Sinfonia do Mar é justíssima na alcunha, junta daquela orquestra de frutos d’água onde ninguém cuida de perguntar quem rege a batuta. Já a Grelhada Terra e Mar acerta a paz na família, junta o que folga com o peixe e o companheiro de mesa que teima na carne de bicho de pasto. Lá no Casablanca, pelo visto, a concórdia faz-se sobre as brasas.
Depois, assoma o arroz de mariscada, iguaria que não carece de papéis gravados nem grandes tiradas para mostrar ao que vem. É comer de pausada mastigação, de côdea de pão à ilharga para ensopar a caldeirada e, Deus querendo, sem obrigações nem dinheiros a tratar na hora seguinte. O arroz de tamboril, que os mais velhos da casa gabam desde há muitos invernos, é outra daquelas razões de peso para quem prefere o tacho remediado às modernices de pouca substância. Guardam-se memórias antigas de meias rações ao preço de quinze tostões de euro, bem que hoje o valor já vá por outros caminhos.
Para o peregrino que goste de ir direito ao miolo, a carta da casa apresenta hoje gambas salteadas em alho e azeite, outras passadas pelo fogo da grelha, amêijoas no seu caldo com coentros, conquilhas, navalheiras, mexilhão, ostras do sal, percebes de rocha, sapateira de recheio fartíssimo e a dita lagosta, entre outras tentações que bem mostram ser o dito “vou só debicar qualquer coisa” a maior das atoardas de quem se assenta à mesa neste reino.
O peixe, de resto, não ali jaz para ornamento das bancadas. A casa preza-se de mestria no gado do mar e na frescura da pesca diária; e é em tão clara simplicidade que reside a sua alma: substância de bom reconhecimento, préstimo de cozinha portuguesa e pouca palavra a justificar o que traz o prato.
Não falta a carne para o homem que, entrando em marisqueira, treme do regaço ao primeiro cheiro a sargaço. Mas fora grande heresia entrar no Casablanca para enfiar o dente em lombo de rês. Vale tanto como ir à adega do Dão e pedir água de nascente por ter a garganta seca.
O dinheirame a largar vai da vontade do freguês. Pelos cômputos que hoje correm, a despesa por cabeça costuma assentar entre as quinze e as trinta e cinco moedas, ainda que folgança assente em marisco de maior porte possa galgar esse lance. Não é casa de comer por tuta e meia; tampouco é terço onde o homem tenha de empenhar o património à saída. É, acima de tudo, pousada onde a conta acompanha o marisco que se deita à boca, e bem se sabe que a bicharia do mar nunca foi cousa de poupança.
O aposento é de feição antiga, sem grandes arrebiques de pedreiro ou engenho de ornato. Aqui a virtude não está no assento, no candeeiro ou na parede pintada para pasmar o viandante. Está no prato de servir. E talvez seja por essa mesma razão que o Casablanca sobreviveu a tantas modas da época, a tanto restaurante de vida curta e a tanto rol que cuida que uma raminha de coentro no cimo de tudo faz da comida uma maravilha das Índias.
Há quem ande agora à procura de casas que contem fados e historiadas. O Casablanca tem a sua, que de nada carece de ser inventada, principiou em 1988, no coração da Beira, com o propósito de trazer o marisco e o peixe de feição a estas terras de Viseu, e acabou por fazer dessa tenção um costume firme. A própria terra lhe dá esse merecido respeito.


Por cabo de tudo, a melhor sentença é esta, o Casablanca não precisa de pregar aos fiéis que Viseu dista muito das praias. Todos o sabem de cor. O prodígio é conseguir que a gente se esqueça disso enquanto dura o repasto. E isso, em terreiro de montanha, já é feitio que roça o milagre.
Por vinte a trinta e cinco moedas de consumo por cabeça, subindo a parada se a escolha for para o crustáceo mais nobre —, lá se encontram as suas artes primeiras: arrozes caldosos de marisco e tamboril, cataplanas de bom fundo, a dita Sinfonia, a grelhada de Terra e Mar, gambas, amêijoas, sapateiras e o bom peixe fresco. Enfim, marisqueira das antigas, sem prosápias nem vanglórias, onde a Tradição é o tempero da panela. Uma verdadeira instituição destas paragens.






