Chegou-me à mesa depois de muito deambular, na demanda de um copo de vinho e um petisco. Não sabemos, é mais não querermos, promover o que é nosso e para embalarmos o vinho num copo de esplanada faltam muitas léguas. Sobretudo para quem, como eu, descia a Galiza e chegou à Póvoa de Varzim. O espanto de quem recebe a pergunta, “tem vinho a copo?” ainda me estrebucha a alma, num país que é vínico e que dessas uvas consegue extrair perto de mil milhões de euros, apenas na exportação. Preferimos a ganadaria da importação da surrelfa a fazer valer os nossos produtos a quem nos visita. Uma inquietude de cansar almas e que afaguei com duas botelhas, a 15 euros cada a preço da restauração, que logo ali se agitaram ante um bacalhau com broa e uns prévios, croquetes de alheira e uns pastéis do gadídeo. O resto é mania de país que prefere apostar na golpada a mostrar, e vender o melhor que tem a quem nos visita.



E o vinho? Creio que já por estas crónicas passou e o tempo faz-lhe préstimo. Não procura espavento nem salamaleques pelo excesso aromático ou pela exuberância tonta. É um branco das fragas do Dão que prefere a nobreza, a frescura de nascente e a vocação nativa para emparelhar com a farta comezaina, afinal, o tribunal da mesa continua a ser a mais rija prova dos noves para aferir da têmpera de um vinho.
Parido na Quinta de Carvalhiços, em São Miguel do Outeiro, concelho de Tondela, este branco nasce de um consórcio bem amanhado de Encruzado, Malvasia-Fina e Bical, castas de lei que se ajustam com finura e entendimento. O Encruzado dá-lhe espinha dorsal, acidez viva e aquela veia mineral e terrena que de pronto se reconhece nos brancos velhos do Dão; a Malvasia-Fina concorre com a nota floridinha e levemente perfumada; enquanto a Bical cinzela a vivacidade e o aprumo do lote.
A quinta carrega uma história que merece lavra. Ligada à Fundação São José, do arcebispado de Viseu, ostenta umas sete dezenas de hectares onde a cepa reina soberana. As novas vides começaram a dar cacho em 2019 e, desde então, o projecto vem afirmando o seu talante com pés no presente, mas sem desgarrar uma polegada da terra que o pariu.
Habitamos aqui um chão de granito tosco e maçaroco, em socalcos de quatrocentos metros de altitude, paisagem de serra golpeada por brutos saltos de temperatura entre o dia e a calada da noite. É terra que não carece de compêndios nem falação, bebe-se no copo. A acidez de 6,51 g/l e o pH de 3,20 são os números da sua rivalidade com a sede e da sua vocação para o prato.
Ao olhar mostra-se límpido, luzente, de uma juventude sem eiva. Ao olfato não esconde maçã da beira, pera rija, flor branca e um toque de fruto de paragens quentes, num arranjo limpo e sem artificiarias de adega. Na boca confirma a promessa do nariz,: frescura escorreita, bom arcabouço, fruta de árvore e uma acidez fidalga que lhe dá espicaço, nervo e alonga o golo. Não é vinho de atarracar nem finge ser o que não é; é antes um branco justo, daqueles que se empinam de enxurrada sem que isso signifique frouxidão de carácter.
E é por aqui que este Quinta de Carvalhiços Branco 2023 leva a melhor. Foi talhado para a merenda e para a boda. Mas desenganem-se, servido a tiritar de frio perde o fio ao machado. Requer entre os 9 e os 11 graus para soltar a fala e dizer ao que vem. Sublinhe-se ainda o preço de favor. Achado na praça pelos cinco ou seis euros, estamos perante um caldo que dá muito mais do que aquilo que cobra. O Quinta de Carvalhiços Branco 2023 sabe bem a que porto navega, um Dão escorreito, aprumado, franco e feito para a mesa, com timbre próprio e sem enfeites desnecessários.



Num tempo de vaidades em que há vinhos que parecem precisar de um cartório de diplomas para justificar a fatura, sabe a consolo encontrar um que se limita a honrar a palavra dada. Às vezes, o melhor elogio que se pode fazer a um vinho é não dizer mais nada e tornar a encher o copo.






