O Sítio é uma ideia bonita e feliz, saída da inteligência e da alma da Inês Beja, que me dá de comer há mais de uma década, que sabe o que quer e conhece o caminho. A sua carreira fala por si e o Páteo, desse podeis ouvir no Contador de Estórias, é outra elegia.
Chegámos lá, a Santar, em família, que tem o condão de nos permitir provar mais pratos. Sala aprumada, de boa iluminação, boa assentadoria e livros ao balcão que a Inês dá aulas, formou-se na hotelaria e é Mulher sagaz. Em dias de Feira do Vinho do Dão, em Nelas, transformar Santar numa obra é não perceber nada do que é o turismo nem a economia local, mas dessas municipalidades, afasto-me e foi por esse não saber que não pusemos pés na Feira. Somos clientes, provadores e merecemos outro respeito. Esse com que nos tratam no Sítio e onde nos conseguem sempre surpreender.



Com essa frescura de uma xicara com puré de melancia e um naco de polvo, frescura vegetal e intensidade do mar, trabalhado com a precisão e essa sensibilidade de quem sabe ser empresária e uma valente anfitriã. Assim nos chegou um cesto de belos pães, um deles de massa mãe feita de uva, uma deliciosa excentricidade modelada pela inteligência, um pão de azeite de ‘oh meu Deus’, barrado com Queijo Serra da Estrela DOP e umas galegas, miúdas e honestas de sabor vincado, com um azeite onde ainda molhei pão. Nessa hábil tábua vinham ainda uns gomos de cebola, que me refrescaram, rijos e de braveza, um legume de raiz e bela ousadia.



Nas entradas, tive que negociar com minha Mulher, já espeto garfo, meu filho ficou-se pelos fabulosos pasteis de massa tenra. A Anita escolheu a batata albardada e eu fui feliz com umas trutas do rio Teixeira, sim, a Região é tão generosa, fritas e escorreitas que me souberam pela alma.



Como tinha saído de um bar para comer carne, lá me chegou generosas postas da vazia da vitela, enquanto o Petiz se escorreu pelo cabrito, com um arroz de forno de estalo e a Anita com umas pataniscas de bacalhau e um arroz, carolino, e, tomate caldoso. Nas sobremesas uma de citrinos, um pudim D. Branca e para mi, o Páteo, onde me refastelei com umas belas fatias de queijo curado, de cabra do Caramulo. Uma epopeia gastronómica, que engrandece Santar, que precisa de mais espaços sofisticados e cosmopolitas como este e que, não se acanham de na ementa escrever a palavra ‘Campestre’.



Há jogo de sabores, perfeição e a capacidade da Inês Beja em pegar num ingrediente simples, de época, e transformá-lo num momento de magnifica elegância no prato. A geografia dos arredores entra na cozinha, há um Menu de Degustação Endógeno e a opção da carta. O SÍTIO traz-nos o Dão, a Beira Alta, com qualidade singela, estamos na mesa da comida ‘enxuta’, honesta e saborosa. Não basta conhecer os ingredientes, é preciso coloca-los a dançar para atingir essa harmonia gastronómica. E se o produto tem qualidade e manejo, cozinhar exige sensibilidade, a garrafeira não lhe fica atrás.



Sim, Santar ganhou um Sítio e nós um paradeiro para colorir a nossa barriguinha. Mas a verdadeira alma deste Sítio está na Inês Beja, uma cozinheira de mão cheia, generosa no acolhimento e de uma sensibilidade rara, que pega na memória da Beira e a devolve à mesa com uma mestria impecável. Que privilégio é ter um restaurante onde nos sentamos na mesa de quem cozinha com tanta verdade e saber.






