Num destes sábados outonais, em que a esplanada já exige um casaquito, a questão familiar de sempre voltou à mesa, enquanto eu bebericava um tinto da Quinta do Paul e a minha mulher se entretinha com um Cabriz branco. Por estes dias, e nunca é demais repeti-lo, o ponto de paragem para um copo ao final da tarde é o Level, bons copos, melhores vinhos e um atendimento irrepreensível. De modo que, após uma sucessão de telefonemas, às 19h50 não conseguimos mesa. Na procura, entre os já muitos restaurantes de cozinhas do mundo que Viseu oferece, a escolha acabou por recair na Osteria RegiBeli, uma osteria de inspiração italiana, de cariz familiar.



Boa garrafeira, com referências italianas e uma forte representação do Dão, que nos levou a escolher um Passarella Rosé de 2024. Garrafas de água e refrigerantes em vidro, bom ambiente, música italiana em fundo, a criar uma atmosfera de conforto, e pão feito na casa. Para couvert, uma focaccia, pão de miolo macio e generosamente untado com azeite, umas azeitonas bravas e uma manteiga muito saborosa. Um começo que cumpriu a função de abrir o apetite sem grandes artifícios.
Às entradas, para repartir com o meu filho, uma bruschetta de tomate. O pão tostado serve de base ao tomate, temperado com azeite e manjericão. Uma preparação de aparente simplicidade, em que a conjugação dos ingredientes e o equilíbrio do tempero lhe conferem um resultado de forte pendor gustativo. É daqueles casos em que pouco precisa de ser acrescentado, desde que o essencial esteja bem feito.



Na apresentação dos pratos, a casa exibe um tabuleiro com os diferentes tipos de massa disponíveis, que serão confecionados como massa fresca. Um pormenor que não é meramente cénico, permite antecipar a refeição e reforça a identidade da cozinha. Foi por aqui que a minha mulher se decidiu por um prato próximo da tradição italiana da pasta alle vongole, em que as amêijoas assumiram o protagonismo, conjugadas com alho. A massa beneficiou particularmente do caldo libertado pelo marisco, absorvendo-lhe o sabor sem que o conjunto se tornasse excessivamente salgado. Um prato em que o mar se faz sentir sem necessidade de se impor.
O meu filho aprovou uma massa com bochecha de vaca, um corte particularmente interessante para a confeção lenta. Estufada até ficar tenra, a carne revelou um sabor profundo, que conjugou muito bem com a massa fresca. É um prato de perfil mais intenso e reconfortante, em que a textura da carne e a concentração do molho assumem papel determinante. Aqui, a riqueza da confeção não se sobrepõe à massa, complementa-a.
Com pena de não ter retido o nome dos diferentes tipos de massa que nos calharam em sorte, fiquei-me por uma massa com ossobuco, corte de chambão de vitela, transversalmente seccionado, com o osso e o tutano no centro. A carne vinha desfiada, com o molho por cima e o osso no prato, ao qual me devotei afincadamente. Estufada lentamente, textura muito macia, a carne apresentava um molho de profundidade e consistência, num conjunto marcado pela intensidade do sabor e pela ligação voluptuosa entre a carne e o molho. Um prato de conforto, mas sem a banalidade de tantas confeções que confundem intensidade com excesso. Foi, para mim, o momento alto da refeição, e talvez das melhores destes últimos meses.
No final; sem sobremesas nem cafés, mas com vinho, refrigerantes e água, a conta ficou-se pelos 90 euros. Um valor que pede, naturalmente, uma apreciação em função do conjunto, mas que se enquadra numa refeição em família, com entrada, três pratos e vinho. O restaurante tem um espaço bem aproveitado, atendimento cortês e uma decoração de grande qualidade, com o pormenor de reservar no exterior um trio de mesas onde cabem os fumadores e se pode apreciar o último trago de vinho. E para mim, enófilo assumido, garrafeira à vista, mas cuidado na guarda das garrafas.
A Osteria RegiBeli convence pela identidade da proposta, pela atenção aos detalhes e por uma cozinha que encontra na massa fresca e nas confeções demoradas os seus argumentos mais fortes. A voltar.


Osteria RegiBeli: Travessa das Pedras Alçadas, Lote 1, (232 407 030)






