Nem mais Cabriz, tampouco botelhas distribuídas pela Vinalda


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Nem mais Cabriz, tampouco botelhas distribuídas pela Vinalda

Já vou à decisão, antes a Marrã, merece bem mais que estes que duvidam do dinheiro, e do trabalho, dos lavradores. Antes, o situacionismo. O Vinho do Dão está nas mãos das distribuidores e eu outorgo-me no direito de beber o que bem me apetecer e não o que me querem servir. Ora em Sábado reportado, fiz-me às Terras do Demo para moderar política. Ao caminho, café no Touro, ala por Porto da Nave e paragem para contemplar castanheiros, o planalto, a safra da maça e, ademais, parar para fotografar.

Moderado o debate, o almoço trouxe-me essa “Marrã”. Marrã de S. Francisco, para sermos precisos. Antes, no restaurador, aviei bela, generosa e saborosa porção das carnes de porco, assadas com marinada rica, um símbolo da forte e tradicional gastronomia serrana. E redanho no torresmo.

Por ali me ficava, não fora dar-se o caso de a estrada de regresso a casa me trazer pela Nacional 226. Sem hesitações, moído por quatro décadas de IC 26, que não ata nem desata e lembrado foi, apanhei a Feira de S. Francisco, logo após o corte para Barrelas. Vinha inquieto para parar no S. Francisco e espreitar a garrafeira, motivo de inquietação por um consumidor deste Armazém e rejeitei a Estrada Municipal 514, tomei antes a Nacional 323 e parei no restaurante. Espreitada a garrafeira, o Dão era, tão só, vinho de supermercado, apesar dos meus alertas que eu disto vou ao almirantado que guarda só na marinha.

Nem comodoros. Saí desiludido, mas, quem madruga Deus ajuda, encontrei a Feira, ainda mal assomado a Arcozelos. Um grito e estava na minha courela. Fui-me aos tachos, traguei mais redanho e Marrã e fiquei a matutar.

A distribuição do Vinho do Dão é estranha, ou seja, é o que vem no cardápio da garrafeira e a malta que se amole. Inquieto por desiludir lustrosa companhia, nos vínicos, afiambrei-me nas cevadas.

E pensei que na mesma semana dois pequenos produtores me ofereceram duas caixas de vinho porque a exclusividade não lhes permitia vender-me o dito. Onde é que já se viu tal coisa de um marchador ir ao produtor e ele não poder vender o Vinho do Dão à razão do contribuinte? Isto mata o Dão, a lavoura, destrói a grandiloquência de um vinho único, e excelso, tudo em abono desse rappel, o desconto comercial concedido a um cliente que atinge determinado volume de compras ao longo de um período, incentivando a fidelização e o aumento do volume de vendas para o fornecedor. Lavrador? Para esse prega São Francisco. Qualidade postergada em nome de desconto, crédito para compras futuras, percentual aplicado em escalões, sendo que quanto maior o volume de compras, maior o benefício para o cliente. Não para o bebedor. Ora de rapel apenas o que me ensinaram nos Bombeiros, a descida vertical praticada com cordas em paredões e vãos livres. Nada contra a entrada de gama, tudo a favor de amplitude nas escolhas.

Aviada a cevada, tomada a decisão, desprezo esse alpinismo que requer preocupação com a segurança do praticante. Eu é mais bebedores e eles a matar o Dão, a fazer dos pequenos produtores do Dão lavradores durienses, que, um dia, haverão de ficar com as uvas nas cepas. Comer e beber só do local. E a Feira é mais do que simples mercado; é celebração, Fé, tradições rurais e gastronomia local, servindo historicamente para marcar o fim de um importante ciclo agrícola. O fim das colheitas. Assim acolitado em tenda de campanha meditei e entendi que isto já não vai lá com doçuras, nem travessuras. Bem basta o alentejano que abonda em Viseu, onde já não se prega Dão em muitos bares, os quais, aviso já, deixei de frequentar pelo mesmo motivo.

São Francisco de Assis, Santo protetor dos animais e da ecologia, haverá de me compreender, olhando ao Convento, ou melhor, o que resta dele, ali mesmo na confluência das Estradas Nacionais 226 e 323. As ruínas do Convento são locais de grande importância histórica para a Ordem Terceira Secular em Portugal, que, tal como o Dão, também se abalou de Viseu.

A Feira de São Francisco remonta a “tempos imemoriais”, essa felicidade do fim das colheitas, embora a safra da maçã ainda precise de mais umas quantas semanas. Como a uva e a castanha. É momento de encontro para a população rural, frutos do trabalho que haverão de preparar Inverno.

Pois a boa da Marrã é prato rei da Feira, que, juntamente com a carne fresca de porco e os torresmos, atrai visitantes de várias latitudes, a longitude fica nos apoucados, para provar sabores tradicionais da Beira. Merecia vinha supimpa.

A importância da Feira é muita, enorme, mesmo que para “Cinco Reis de Gente”, já o Dão é “A Via Sinuosa”, que haverei de quitar. Tomada a decisão, esclarecidos que é a Marrã, a fêmea do reco para os acolitados, lembro Mestre. Aquilino Ribeiro que cravou a dedos de escrever estas vidas que campeiam sustento na lavoura. “Custódia Gaudência punha a forjicar um pedaçorro de marrã, se havia defunto no chambaril. De contrário, imolava um reixedo e toca para a caçoila com bom azeite do Tedo, cebola, batata turca, grossa como cabeças de doutores”. Está tudo nesse almanaque de bons costumes que são as “Terras do Demo”. Mesmo que, entrado em restaurante histórico e renovado, contrariadas outras circunscrições, me falte o bom briol. Uma refeição especial, festa na aldeia, ocasião importante. Sustento e reserva. A Marrã é mais do que um prato; é esse elemento cultural que Aquilino Ribeiro usa para pintar o quadro vívido e autêntico da vida nas serras da Beira, onde a comida farta e saborosa é pilar da sobrevivência e da celebração comunitária.

E nisto, ainda com a manhã fresca na retina e o Planalto da Nave sentido na alma, pensei no Santo. O S. Francisco, que apesar da festa leva com entrada de gama. Duvidais do dinheiro dos lavradores? Depois de inquietado um administrador executivo, um diretor de vendas e um acionista, valha-nos o Giovanni di Pietro di Bernardone, esse Frade Menor, Francisco, feito e nascido de Assis, que desfrutou de uma vida de prazeres, a que haveria de renunciar como eu abjuro, hoje, de zangado, irritado, aborrecido, furioso, encolerizado, contrariado, indignado, enfadado e agastado com o querer beber o que me Dão, que bem prega em vão. E passar bem.

Nos últimos anos de sua vida, Francisco recebeu estigmas, marcas que, segundo a tradição católica, são semelhantes aos ferimentos de Cristo crucificado, demonstração de intensa união espiritual com Jesus. Este acólito, cristão de escassa prática e muita Fé, reclama simplicidade, paz e cuidado com toda a criação. Toda a criação, do Colheita ao Blanc des Noirs. E como ainda tenho o livre arbítrio que Deus me deixou, decisão tomada. Amanhem-se. Isto não é vender, são vidas que, tal como o Convento, deixam ao Deus dará. Comida farta e saborosa? Pois sim. E beberes? Cerveja.

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