O meu primeiro emprego, assim que larguei o Estado, foi na Adega Cooperativa de Tondela. Estive lá por duas vezes. Em 2021, comecei nos preparos da vindima, com o beneplácito do engenheiro Brites, que tinha no quadro técnico ainda outros dois engenheiros, um de produção, outro de floresta. Sim, havia uma secção florestal. Os dias mais duros eram quando a produção ultrapassava as 800 toneladas, à data eu avisava o Brites. Vi o funcionamento técnico, adegueiro incluído, contabilístico e comercial. E ligava ao Dinis a perguntar quantos pregos, enquanto eu ia ao Alambique, abriam-se meias garrafas de Tinto para aviar a carnuça.



Voltaria em 2006, então no refratómetro, a medir o volume de álcool. Vi as uvas e vindimei outras tantas. Hoje, das cooperativas, sim também vi os desmandos da gestão, sobra uma mão cheia.
A Udaca é o navio almirante da esquadra, poderosa e vital na comercialização.
A União das Adegas Cooperativas do Dão foi gizada a 21 de maio de 1966 e chamou a si a reunião de adegas associadas. Hoje representa quase 60% da produção dos vinhos do Dão, com forte pendor exportador. Calçada com uma centena de cubas, capazes de armazenar 6.000.000 litros, sim, seis milhões, tem duas linhas de engarrafamento e por hora atira-se às seis mil botelhas.



Outro associada é a Adega Cooperativa de Silgueiros, fundada em 1962 e funcionamento dois anos depois. Ali agregam 2000 viticultores, a produção certificada por normas internacionais que garantem a qualidade e segurança de produtos alimentares até ao consumidor. O IFS envolve auditorias para verificar a conformidade com requisitos legais e do cliente, o que fortalece a confiança e a reputação.
Temos também a Adega Cooperativa de Mangualde, fundada a 4 de dezembro de 1963, com enoturismo no Centro Interpretativo da Vinha e do Vinho.
Acrescem a Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, criada a 23 de dezembro de 1960 e junta 900 sócios e a Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém.
O cooperativismo são os associados sejam os produtores de uva da região, que cultivam as suas próprias castas e entregam-nas à adega para vinificação e são pagos.
Houve loucuras, desapareceram adegas impressionantes, o setor hoje está mais prudente nos negócios e confiante com a capacidade de armazenamento.



O problema está no accounting, noto eu que a informação detalhada e consolidada sobre todas as adegas cooperativas em funcionamento na Região Demarcada do Dão é difícil de obter com precisão, num único local e com dados muito recentes, faturação e produção. Fazem falta os dados, sim, compreendo a natureza comercial sensível, mas sou consumidor.
Que belo pedido! A escolha de um vinho de cada uma destas prestigiadas cooperativas do Dão será feita honrando o espírito da região, elegância, frescura e longevidade.

E do beber, a apreciação crítica? Adega de Silgueiros Touriga Nacional Reserva, poética da filosofia, meditação sobre o tempo e a identidade. É a Touriga que se despoja do excesso, um vestir nobre e austero. Não grita, um murmúrio de rio, nas encostas graníticas e nevoeiros frios que as esculpiram. A força reside na concentração do espírito, não na expansão da matéria. Beber este néctar é reconhecer que a elegância é a virtude da contenção. Mestria da cooperativa no manejo da casta rainha do Dão. Na prova, exibe uma cor profunda. Nariz complexo, um fundo de especiaria do estágio em madeira, que está perfeitamente integrada. Na boca, estrutura e taninos polidos, exige paciência, com uma singela finesse mineral.





O Encruzado da Adega Cooperativa de Mangualde é um manifesto de luminosidade, vinho branco que se recusa à leviandade, opta pela arquitetura de cristal, pureza verde-dourada, uma alegoria à clareza de pensamento, um aroma que evoca o limão, a resina e a flor branca da Primavera, solo e frescura dos ares da serra o que mostra como complexidade pode coexistir com a vitalidade. É o sorriso contido, mas profundo, do Dão.
Notável acidez e mineralidade, que lhe conferem uma espinha dorsal firme. O aroma é dominado por notas cítricas, volume e textura, uma frescura penetrante que o torna excelente, de final longo.
Da Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, um Dão Tinto de Penalva, o coletivo, história de todos. Não se perde em vaidades, a textura firme, mas afável, evoca-me as mãos calejadas dos viticultores que, ano após ano, mantêm viva a tradição da vinha. Beber Penalva é confiar na sabedoria da comunidade.



É geralmente um blend das castas regionais, Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, que também tocam a solo. Fico-me no colheita, direto e descomplicado, estrutura sólida, taninos presentes, autêntico, um meio convite para uma reflexão sobre a herança e o enraizamento.
Subo à Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazém, Tinto Clássico, essencial. É o vinho do quotidiano, da casa, da mesa, da conversa, a filosofia da honestidade e do conforto. Por lá alegria despretensiosa, não lhe abondam complexos adornos. A leveza estrutural, acidez marcante, convite de briol fresco, sem excesso de extração ou madeira, concebido para ser bebido jovem, mesa de qualidade superior.
Sustentabilidade, volume e negócio, as cooperativas do Dão são um agente de equilíbrio entre a tradição e a economia social. A enorme capacidade enológica do coletivo, eleva a imagem da região sem abandonar a base social que as sustenta, os lavradores. Lá está, vinho é negócio de lavradores e comerciantes. Que seja bom e muito. Saúde.







