

Há uns anos a esta parte, a Adega de Penalva do Castelo desatou a produzir vinhos varietais, de uma casta só, o que, penso eu, foi uma ideia formidável, que tem dados belíssimos resultados. Para mim, acrescento, a suscitar a curiosidade ao bebedor e lição única de rótulo.
O vinho tem modas e mondas, o Dão conheceu os varietais no início deste século, e isso mostra a quem bebe, as castas tradicionais em todo o seu potencial. Vinhos monocasta, ou monovarietais, elaborado exclusivamente a partir de uma única casta. Neste caso, um Bical, casta branca, que por norma vai a lotear, mas que singela brilha. Tem valor próprio, não precisa de boleias no lote e surpreende ao supetão.
O nariz requer tempo na prelatura. Na boca é suave, fresco e com um toque levemente adocicado. Era de começo, com 12,5º, trouxe-lhe linguiça, casqueiro de Vildemoinhos e queijo. Sagaz, provocador, quase erótico, bate de leve e fica ali a dar que pensar. No final, vem o estalo. Um belíssimo vinho, que agradeceu os quatro anos de espera, ganhou com eles, de cor amarelo citrino, aroma delicado, Sabor suave, fresco e com um toque levemente adocicado, próprio da casta.
O Bical é precoce, doce, com elevado potencial alcoólico, embora, por vezes, possa ter menor equilíbrio na acidez, mas isso são assuntos próprios da viticultura. A botelha custou 12,49 euros, em loja, para um vinho medalhado no Dão, nas Cidades do Vinho 2024 e nos Vinhos de Portugal, em 2023.
E 2021 foi vindima fácil, a típica do Dão, com vinhos soltos, as videiras generosas, elegantes. Pudera, com três fases de chuva e sol, a vindima foi a compasso, mas trouxe aroma para a garrafa.
Reflexo do trabalho feito, a Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, fundada em 1970, tem hoje mil produtores em 1500 hectares de vinha.
O muito respeitado professor e enólogo Virgílio Loureiro tem ali dedo, o Luís Pina tem autoridade e recebe saberes, modernos e antigos. Sim é preciso perceber o que foi antes.
Este Bical é delicado, chega de mansinho, primeiro a boca, depois o nariz. E, como em tudo, aguentou bem a espera. Tenho para mim que melhorou com a idade.
E com o arejar da garrafa, fresca na temperatura de serviço, lá vemos esse lado voluptuoso do vinho. E nem damos conta do que estamos a beber.
Um vinho extraordinário.






