Santa Comba, a do Dão


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Santa Comba, a do Dão

Chego-lhe pela Nacional 2 que me deixou memórias, uma delas bem sonora, era eu ainda um adolescente a atender telefones, mas já a falar nos rádios. Mas sim, para quem sai de Viseu, descer a Fail e contornar o IP-3, apesar das restrições das obras, pela 2 é bom andamento. Também podemos descer à Pinoca e ir pela N-234. Vamos beber um Dão de jardim, devagar, de preferência com vista para a confluência dos rios. Sentirá que, tal como a rede hidrográfica que desenha o mapa, o vinho pinta a alma das gentes. A jornada até poderia ser breve, são daqui 92 quilómetros, pelo Rio Dão, até à nascente, na Serra da Lapa. Já a foz é no limite de Santa Comba, desagua na margem direita do rio Mondego, num local conhecido historicamente como Foz do Dão, que foi aldeia e ali ficou. Submersa. Eu já vi este Dão pelo ar, numa cortesia da Marinha que a estendeu, com os bombeiros aos muitos braços de água que por aqui ligam quatro concelhos.

O Mondego dos poetas recebe as águas do Dão e do Criz, que engrossam o caudal ao rio, aqui em Santa Comba Dão. Sim, o Criz nasce na Serra do Caramulo, desagua também no Mondego, já no espelho da albufeira, cria ali braços de água que recortam a paisagem e são muito procurados para a pesca e lazer, como na zona de São Jorge.

A construção da Barragem da Aguieira, em 1981, transformou radicalmente a hidrografia. Dos vales profundos e rios rápidos, hoje temos aqui um vasto ‘mar interior’, um espelho de água que une os rios Dão, Mondego e Criz. A viagem que sustenta este roteiro é composta principalmente pelo IP3, que liga a Coimbra e Viseu, e pela N2, que atravessa o concelho de norte a sul. A Foz do Dão está a apenas 10 minutos de carro do centro, enquanto a Senhora da Ribeira exige uma condução mais lenta de 20 minutos, recompensada pelo silêncio das águas. Cada quilómetro percorrido nestas estradas é um passo dado entre o murmúrio das ribeiras e o aroma das caves de granito.

Fiz a viagem num destes dias, em missão de repórter, olho nas margens e nas bordaduras. Aqui também houve adega. Historicamente, a Adega Cooperativa de Santa Comba Dão foi o grande motor da viticultura no concelho, congregando centenas de pequenos produtores. Alguns produtores têm vinhas em Santa Comba Dão, com adega em concelhos vizinhos, como as Boas Quintas, em Mortágua. Aqui o clima é outro, Encruzado nos brancos, Touriga Nacional e Alfrocheiro, nos tintos, bailam na influência dos rios Dão e Mondego, tendem a ter uma acidez muito equilibrada e uma elegância que não encontra em regiões mais quentes. Vamos de caminho.

A jornada começa no núcleo urbano de Santa Comba Dão, onde o granito das casas parece ter raízes profundas na terra beirã. Partindo do centro histórico, a Estrada Nacional 2 serve de guia espiritual. Apenas a 3 km de distância, as águas do Rio Criz começam a desenhar os primeiros contornos da albufeira. É um lugar onde a engenharia humana e a natureza se fundiram, a rede hidráulica da região, dominada pela Barragem da Aguieira, transformou este rio num espelho de prata que reflete os pinhais e eucaliptais circundantes. Prepare-se para receber esse abraço líquido, que vislumbra do Itinerário Principal 3. Seguindo para Sul pela N234, num trajeto breve de cerca de 6 km, alcançamos a Foz do Dão. Aqui, a metafísica da paisagem atinge o seu auge, o Rio Dão, vindo de Norte, entrega-se ao Rio Mondego. As estradas que aqui convergem, N 234 e acessos ao IP3, são artérias que levam o viajante ao encontro desta união fluvial. A rede hidrográfica revela-se em toda a sua força, com a Ribeira de Mortágua a espreitar nas proximidades, a escassos 4 km de distância, alimentando silenciosamente o caudal do grande Mondego. Fim do horizonte? Talvez na Senhora da Ribeira. Continuando pela mítica N 2 em direção a Sul, após percorrer cerca de 12 km desde o centro da cidade, chega à Senhora da Ribeira. É uma localidade que vive um sopro literário, isolamento e beleza. Aqui, o Mondego é largo e profundo, e a distância para a parede da Barragem da Aguieira é de aproximadamente 10 km por via fluvial. O acesso faz-se por estradas municipais estreitas que serpenteiam entre encostas, onde o cheiro a esteva e rio embriaga os sentidos. Conduza com cuidado, sobretudo nestes dias em que as bermas estão encharcadas. Siga o mapa dos vinhos, pelas moradas e caminhos.

O vinho em Santa Comba Dão é o sangue que corre nas veias de uma terra de rios. Pereira de Melo Dão Family Estates, localizada quase no coração da cidade, o acesso é imediato a partir da N 2. É uma adega de família onde a tradição é exercício de paciência, com brancos que guardam a frescura das manhãs de nevoeiro sobre o Dão. A Quinta das Ladeiras, na freguesia de São João de Areias. Seguir pela N 234 direção Este Sul, a cerca de 8 km do centro de Santa Comba Dão. As estradas que levam até à quinta atravessam vinhedos que se debruçam sobre os vales dos afluentes do Mondego. É o local ideal para encontrar tintos robustos, de cor granada, que carregam o calor das encostas viradas ao sol.

Beber um vinho de Santa Comba é ingerir a própria memória da paisagem. É um ciclo perfeito: a água dos rios alimenta a videira, a videira entrega o sangue, e nós, ao bebê-lo, tornamo-nos parte deste mapa de águas cruzadas.

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