Morgado de Silgueiros Malvasia Fina 2024


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Morgado de Silgueiros Malvasia Fina 2024

Tomei-o de supetão, numa quinta-feira de entorna copos, acabado de chegar da garrafeira a 4,39 euros, assim bebido na raiva dos dias, bebericado entre cigarros e com a ventosa do Leonardo a bater-me nas fuças, a digerir insulto do meu quotidiano, num vinho inquieto. Cheio de pujança, vivo e para durar, muito viço, nuns fecundos 13,5% de volume. Valeram as iscas de fígado, que me entretiveram o palato, entremeado a tabaco, que a noite foi de borrasca. E canto-lhe essa ode a um vinho pleno, escrita com a alma mergulhada no granito do Dão e no lirismo da Malvasia Fina. Beber este Morgado de Silgueiros não é apenas um ato de degustação; é um exercício de ontologia sensorial. No vidro, a cor amarelo-citrina, pálida, mas vibrante, evoca o primeiro raio de sol que rasga o nevoeiro matinal das encostas de Viseu. É um vinho limpo, cristalino e quase etéreo, que parece conter em si a promessa de uma manhã de primavera eterna. É um vinho aristocrático na sua simplicidade, um poema líquido que celebra a união entre a mão do homem e a generosidade da terra de Silgueiros, essa reflexão sobre a brevidade do tempo e a eternidade da beleza.

No nariz, exuberância aromática que é, simultaneamente, selvagem e sofisticada. Notas tropicais e pulsantes, entrelaçadas com a fragrância delicada e púdica da fruta de pomar, a maçã branca, a pera sumarenta, num diálogo harmonioso e perfumado. Há aqui uma filosofia de equilíbrio, o vinho não grita, sussurra segredos de terras ancestrais e graníticas. E foi fiel escudeiro, na varanda e na mesa, sim ainda lá chegou meia botelha, que jantar de invernia pede robustez na barriguinha. Harmonizar um Malvasia Fina de 2024, vibrante e cítrico, com iscas de fígado de vitela, é um exercício de audácia gastronómica e um verdadeiro desafio aos cânones. Estamos perante o encontro entre a frescura etérea do Dão e a densidade telúrica e ferrosa das vísceras,

As Iscas de Vitela, finas e cortadas com precisão cirúrgica, marinadas em vinho branco, alho e louro, salteadas na gordura que estala. Repousadas sobre uma cama de cebolada farta, translúcida e adocicada, escoltadas pela batata cozida, honesta, farinhenta e polvilhada com salsa fresca. Eu explico a união nacional no prato, que não precisamos de cânones e dogmas, reclamamos ossatura para os dois ofícios, o do beber e o do comer. O fígado de vitela possui uma textura untuosa e um sabor profundo. A acidez incisiva e cortante deste Morgado de Silgueiros Malvasia 2024 atua como uma lâmina de frescura que atravessa a gordura da fritura, limpando o palato a cada garfada. Depois temos esse diálogo com a cebolada, as notas de maracujá e fruta branca do vinho encontraram um eco inesperado, e pensado, na doçura caramelizada da cebola, criando uma ponte de sabor entre a panela e o copo. Enquanto o fígado é ferro e sangue, o peso da terra, a Malvasia Fina é granito e brisa, a leveza do ar.

É uma harmonização por contraste absoluto, onde o vinho não tenta imitar o prato, mas sim oferecer-lhe o equilíbrio que lhe falta. Sim, talvez seja teatral dizer-vos isto, ou esteja a ver na botelha companhia de labutas, mas neste prato, o fígado é o protagonista dramático, denso e visceral; o vinho é o coro grego que, com elegância cítrica, traz a luz e a ordem ao caos dos sabores fortes. Aqui está um menu, rebelde e subversivo, apto à borrasca, naquele que muitos de vós dirão, casamento improvável e eu retruco, potencialmente sublime. E se foi.

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