Aberto, cheirei e tomei-lhe a robustez e um aroma puro de fruta, de vinho feito e ali ficou a arejar enquanto eu trincava um pastel de bacalhau, saído da cozinha do Henrique Sampaio, boa fritura, equilíbrio sagrado entre textura, sabor e técnica, bacalhau e batata em minoria, lascas e linhas do gadídeo. Voltei ao vinho, tomei-lhe o corpo e, confesso-vos, foi um dos melhores, se não mesmo o melhor, dos Encruzados que bebi este ano, sim, bem sei, ainda vai curto, mas o vinho é deliciosamente supimpa. Um excelente exemplar de um dos vinhos brancos mais prestigiados de Portugal, este Mariposa Reserva Encruzado 2021 é tudo o que um vinho deve ser.


A simbiose entre o vinho e a sua identidade visual atinge o apogeu neste Encruzado soberbo, onde a robustez estruturada da casta encontra um eco poético na figura da mariposa. Tal como o voo deste lepidóptero noturno, o vinho desenha-se no palato com uma leveza aparente que esconde uma força telúrica, revelando uma metamorfose de sabores que evoluem do frescor cítrico para uma complexidade profunda e untuosa. Beber este Mariposa é experienciar esse equilíbrio sublime, o rigor da aristocracia do Dão, firme e tensa, envolta nessa aura de mistério e elegância de uma criatura que, tal como o grande vinho, merece contemplação.
Apresenta-se com uma cor citrina e cristalina, revelando logo ao primeiro olhar a sua estirpe aristocrática. No nariz, uma sinfonia de elegância e contenção, notas de maçã verde e lima-limão entrelaçam-se com um floral etéreo, quase místico, tudo isto adornado por um toque tostado finíssimo, fruto de um estágio em barrica que não mascara, antes eleva a casta a um patamar de luxo.



Na boca, a experiência é avassaladora e sedosa. Há uma acidez vibrante e cortante, típica daquela colheita de 2021, que atravessa o palato com a precisão de um bisturi, limpando a alma e preparando-a para o próximo golpe. É um vinho de uma textura untuosa e envolvente, onde a mineralidade granítica do Dão se manifesta de forma pujante, conferindo-lhe uma profundidade que parece não ter fim. O final é longo, aristocrático e persistente, deixando um rasto de frescura que nos faz questionar como é possível tamanha harmonia dentro de uma garrafa. Um feitiço de vinho. Produzido pela Lúcia Freitas, a quem o Dão muito deve, é, sem sombra de dúvida, uma obra-prima de equilíbrio, um branco estruturado, tenso e soberbo, que dignifica o nome da Quinta da Mariposa e nos recorda por que razão o Encruzado é, e será sempre, a alma eterna do Dão. Um vinho para beber, com comida, claro, mas na conversa também, meado o tabaco que ele é preciso saber apreciar a beleza dos vinhos feitos com alma. Saúde.






