Alicerce e a alma de um Concelho, Currelos é a trave-mestra onde a história do Carregal do Sal se escreveu primeiro. Antes das reformas de 1836, era aqui que o pulso da região batia com mais força.



Pousada estrategicamente a 300 metros de altitude, a vila funciona como uma varanda natural, de um lado, a bacia do Mondego; do outro, a vigilância eterna das serras da Estrela e do Caramulo. É uma terra de transição, onde o granito beirão se deixa domar pela paciência milenar do homem, abrindo caminho para a vinha e o olival que definem a paisagem. Aqui as pedras ainda falam. Caminhar por Currelos é tropeçar em marcas de uma autonomia perdida, mas nunca esquecida. O Pelourinho Manuelino, que se ergue com uma dignidade silenciosa, é o símbolo máximo desse tempo em que a vila tinha juízes, leis e voz própria.



Pelas ruas estreitas do núcleo antigo, entre largos soalheiros e casas de traça burguesa, adivinha-se um tempo em que o sal subia da Figueira da Foz para aqui ser distribuído, e o vinho já era a moeda de troca da hospitalidade. A Igreja Matriz de Santo André, na sua sobriedade granítica, completa este quadro de uma comunidade que soube guardar a sua essência.



A Cozinha da Lurdes é onde o tempo se senta à mesa. É precisamente à sombra da Igreja que encontramos a verdadeira comida de conforto. No que me calhou, uns carapaus fritos, frescos e altivos, com um mediterrânico arroz de tomate. Antiga, a Cozinha da Lurdes não precisa de grandes destaques, o sinal de que chegámos é a fila de carros à porta e o movimento de quem sabe ao que vem.
O estabelecimento é modesto na pretensão, mas generoso na entrega. As mesas estão sempre cheias, bem compostas com o essencial, azeitonas britadas, o bom pão de centeio e o que houver de fresco no dia. Mal nos sentamos, o papel que cumpre a função acolhe os acepipes. Esqueçam as cartas intermináveis. Aqui, a verdade está nos carapaus, no arroz de tomate malandrinho ou numa cabidela que sabe a casa. Por uns honestos 10 euros, come-se com o corpo e com a alma. O vinho? É da terra, claro. Um “Cabriz” ali do lado, despachado em garrafas que acompanham a conversa de quem, entre garfadas, celebra a vida. A preços comodatos.



Com um atendimento que muitos descrevem como carinhoso e quase familiar, a Lurdes oferece mais do que uma refeição; oferece o conforto de nos sentirmos em casa. Se o instinto falhar, coloque ‘Rua da Igreja’ no GPS. Há um parque sombreado para o carro, deixando-nos a mente livre para o que realmente importa, o prazer de uma cozinha regional, robusta e genuína. E o coçar da barriguinha.






