O que é um vinho velho? O conceito de um vinho velho ultrapassa a mera contagem dos anos no rótulo e entra no terreno de uma transformação química e sensorial profunda onde o tempo deixa de ser um inimigo e passa a ser um escultor porque aquilo que era fruta fresca e tanino agressivo na juventude se converte em notas de terra húmida, couro, tabaco e uma textura sedosa que flui no palato com uma suavidade que os vinhos jovens simplesmente não conseguem replicar
Esta metamorfose levanta uma série de indagações pragmáticas que desafiam qualquer apreciador pois como podemos prever, com certeza se uma garrafa guardada hoje na cave vai evoluir para uma obra-prima ou se vai simplesmente oxidar e transformar-se num líquido decrépito e sem vida dado que a esmagadora maioria dos vinhos do mundo foi feita para consumo imediato e não possui a estrutura de acidez e taninos necessária para suportar o peso das décadas além de ser um risco financeiro e logístico manter condições perfeitas de temperatura e humidade sem a garantia de um retorno sensorial no momento em que a rolha for finalmente extraída.



Porém, no Dão, brancos e tintos envelhecem com muita dignidade. Este, preço de loja a 7 sete euros, quatro em promoção, Caminhos Cruzados Colheita Tinto 2021 é um vinho ainda do antigo proprietário, garantia na rolha. A empresa, apesar da mudança societária, vem apostando na valorização das castas tradicionais do Dão e na expressão do terroir granítico característico desta zona do país.
A colheita de 2021 resulta de um lote composto por 40% de Touriga Nacional, 30% de Alfrocheiro, 20% de Jaen e 10% de Tinta Roriz, castas emblemáticas que conferem ao vinho um perfil equilibrado entre elegância, estrutura e frescura. As uvas provêm de vinhas instaladas a altitudes entre os 400 e os 500 metros, em solos predominantemente graníticos, beneficiando das amplitudes térmicas que favorecem uma maturação lenta e equilibrada.


A vindima foi realizada manualmente e a vinificação decorreu em cubas de aço inoxidável com controlo de temperatura. Parte dos vinhos provenientes das castas Touriga Nacional e Alfrocheiro estagiou posteriormente em barricas de carvalho francês, enquanto o restante lote permaneceu em inox, permitindo preservar a pureza aromática da fruta e conferir maior complexidade ao conjunto.
Apresenta uma cor granada intensa e brilhante. No aroma destacam-se notas de frutos silvestres maduros, amora e bagas negras, acompanhadas por delicadas sugestões de especiarias e ligeiros apontamentos tostados provenientes do estágio em madeira. Na boca revela-se elegante, equilibrado e harmonioso, com taninos polidos e uma estrutura média muito bem integrada. O final é persistente, gastronómico e marcado pela típica elegância dos vinhos do Dão.
Com um teor alcoólico de 13,5% e os 14%, este tinto mostra grande versatilidade à mesa, soube envelhecer e razão há para o considerar uma das propostas mais interessantes da sua categoria, refletindo um estilo moderno de Dão, assente na expressão da fruta, na elegância, na frescura e no equilíbrio. Trata-se de um vinho acessível, mas com identidade regional vincada e capacidade para evoluir positivamente durante alguns anos em garrafa. Eu garanto-o.
E volto ao começo. A própria existência do vinho velho nos convida a profundas questões filosóficas sobre a nossa relação com a impermanência e a mortalidade porque beber uma garrafa com cinquenta anos é uma forma de comunhão com o passado e uma tentativa de aprisionar o próprio tempo numa experiência que é por definição efémera já que o vinho atinge um apogeu de equilíbrio perfeito que dura apenas alguns instantes e logo começa a declinar assim que entra em contacto com o oxigénio o que nos faz questionar se o verdadeiro valor daquela garrafa reside no prazer do paladar ou na melancolia consciente de estar a consumir um pedaço de história que nunca mais se repetirá e, se a beleza das coisas não está precisamente no facto de elas terem um fim inevitável, o fim de uma garrafa de vinho velho assemelha-se ao encerramento de um ciclo existencial onde a última gota derramada no copo sela o destino de uma matéria que esperou no escuro durante décadas apenas para se revelar e desaparecer numa única noite o que nos deixa com a inquietação pragmática de saber se a próxima garrafa guardada terá a mesma sorte e com o vislumbre filosófico de que a memória do sabor que fica na mente é o único elemento verdadeiramente imortal de toda esta jornada.






