Chamou a atenção na carta, durante uma incursão a Norte e não há ali nada de Encruzado. Escolhido a pensar na comida, a 15 euros a garrafa, foi acolitado por uma açorda de marisco e três cortes finos de uma picanha brasada e nada, nem de boca, de nariz, nada o toma por Encruzado. Bem sei, só um ano embotelhado, mas minha Mulher, que tem um nariz fabuloso e muito profissional, chutou-o para a categoria dos intragáveis e eu acenei. Ficou muito mais de meia garrafa por beber, substituído por um Sumol tal o desgosto, e logo eu, incapaz de deixar vinho no copo, quanto mais na garrafa, que a traria para casa, se fosse o caso.
Engarrafado por Opta Wines & Coffee, Lda, uma marca criada em parceria com o enólogo Nuno Cancela de Abreu, focada em dar destaque à icónica andorinha portuguesa e às castas emblemáticas do Dão.



Assim, este Opta Encruzado me chegou à mesa, em rua de Matosinhos prenhe de restauração, de cor citrina, verde pálida, toques minerais e uma nuance subtil de frutos brancos. Não o senti voluptuoso, nem lhe achei grande textura, é um vinho fresco, que não deixa saudades e a que não tenciono voltar. Contrasta fortemente no copo com a teoria oficial, que o descreve como fresco, mineral, elegante e com estágio curto em barrica com bâttonnage, transformando-se, na prática desta mesa, numa enorme desilusão para quem procurava a verdadeira expressão do Encruzado e em comida escolhida a pensar no vinho.


E temos que deixar a vergonha de lado, se tem um número de engarrafador e uma parceria assinalada, há que esclarecer o consumidor e colocar tudo no rótulo. Percebi, no restaurador, que é vinho de muita saída, o que não admira, O Dão branco e, em particular, a casta Encruzado, são verdadeiros tesouros da nossa viticultura, funcionando como poderosos atrativos que temos o dever imperioso de preservar com toda a sua genuinidade e identidade. Para que um vinho realmente deixe marca e saudades, especialmente quando viaja até zonas turísticas, ruma à exportação ou se atreve a passear por outras geografias do país onde o Dão tem, infelizmente, pouca expressão, não pode, nunca, ceder à banalização ou ao artificio comercial.
Proteger esta herança exige rigor absoluto na produção e na certificação, garantindo que garrafas como a que infelizmente falhou à mesa cumpram a promessa da sua origem, em vez de desiludirem quem procura a verdadeira alma da Região. Afinal, só com vinhos dotados de uma personalidade inconfundível, que honram o peso histórico do seu nome e a grandiosidade da casta rainha, é possível conquistar novos mercados, afirmar o prestígio além-fronteiras e fazer com que quem o prove longe de casa guarde o Dão não apenas na memória, mas no desejo ardente de voltar a bebê-lo. E a comprar, que é disso que se trata.






