Minha Mulher, com um olfacto primaz, deixou de se apegar aos tintos quando meu filho nasceu e tem nos brancos as suas videiras de estimação, Encruzado e Malvasia Fina, esta, creio, mais vivaz ao seu palato sensível e inteligente. Ora entre o Memórias de Santar, que se bebeu no apuro da esplanada para remoer o espírito do lugar, o remanso das árvores em noite fresca; o Lafões Dona Branca com um excelente envelhecimento, mas que não inquietou a Anita, chegou-se à mesa essa Malvasia Fina. O Quinta do Sobral Santar, colheita de 2023, 100% Malvasia-Fina com 6 meses de estágio sobre borras finas, com um preço a rondar os 15 a 17 euros, no supermercado, botem-lhe mais um punhado de euros à restauração, teve uma tiragem limitada de apenas 1.733 garrafas.


Convenhamos, o paladar, daquele lado da mesa, estava na falange dos brancos, todavia eu sou de provas e bebo tudo, e tudo como, tudo quanto põem na mesa. E, sendo ele de vinhas em Santar, onde eu, que não sendo nenhum Cunha, comandei as tropas, beberiquei-o a pensar na prova e nesses Centários, que terão fundado a vila a que o povo acrescenta o descanso do rei que ali “assentou”. Lá está o Paço e o Memórias, por estes dias o refúgio sofisticado e genuíno da cozinha beirã, que tanto nos encanta mais a simpatia da Inês Beja, que tem a arte sublime da generosa anfitriã. Quem não é de comer não é de trabalhar e assim rilhei um pastel de massa tenra da Avó Nazaré e com ele olfatei a Malvasia Fina da Quinta do Sobral e aquilatei o peso ao copo. Um branco de feição natural, sem intervenção química ou mecânica, pode acusar ligeiro depósito ou cristais, revelou um estilo muito refinado e elegante. O aroma é intenso, de grande sofisticação, abrindo-se com uma frescura notável. Na boca mostra um volume admirável e uma estrutura equilibrada, fruto daqueles seis meses a repousar sobre as borras finas e dos anos que passou na garrafa.
Sim, a posição cimeira de uma mesa, torna os copos vertiginosos, não pela quantidade, que vou para velho, antes pela qualidade. E com essa curiosidade, como o mostrou o Lafões e este Malvasia, os brancos bebem-se jovens, mas sabem envelhecer com uma elegância e graça de bom porte e vai sendo tempo de desconstruirmos esses mitos que trazemos à ilharga e que, postos de lado, ajudam, e muito, ao talher. Eu assim penso e assim pratico, vinho tem que ter, pelo menos, duas colheitas em cima. E não sou único, meus primos, enófilos e compradores de vinho, comigo partilham esta, abnegada, ideia. É beber para tirar dúvidas.



Os brancos do Dão, com a Encruzado e a Malvasia Fina à cabeça, guardam dentro de si uma estirpe rara que muitas vezes desafia o senso comum dos que os querem apenas ligeiros e de ano corrente. Amparados por uma acidez natural vibrante e por solos de granito que lhes imprimem uma secura mineral inconfundível, estes vinhos ganham, com o tempo em garrafa, uma espessura cerosa, notas complexas de frutos secos, resinas finas e uma melancolia elegante, telúrica mesmo, que só as grandes regiões consagradas conseguem legar ao tempo. E talvez seja essa melancolia que melhor exprima a curta prova deste vinho.
Com os anos, o fulgor inicial da fruta fresca cede o passo a uma harmonia vénia, onde o estágio sobre borras e a barrica, quando a há e este mereceu-a, se fundem numa textura untuosa, porém sempre vertical. Provar um Malvasia do Dão com alguma maturação é, afinal, tocar naquilo que o tempo tem de melhor para dar à vinha, a sobriedade, a persistência e a certeza de que a longevidade não é exclusiva dos tintos, antes uma honra que assiste por direito próprio aos nobres da terra. Como fielmente este Quinta do Sobral Malvasia Fina 2023 comprovou.






