

Memória. Assim que lhe atirei os beiços, uma preciosa lembrança de uma vindima. Uma azáfama, ainda nos antes, quadros, controlo, rigor e saber. Corpo e cérebro de médico, uníssonas a fresar labor. E, sejamos enxutos, lavrador. Dos bons. Dos antigos. E dos amigos. Aprendi, do ver e do perguntar gravando e fotografando, muito naquela adega e naquela manhã. Ainda hoje é das minhas estórias mais lembradas. Adiante que se me secam os lábios.
Pujante, monocasta de Touriga Nacional, não lobriguei o clone enxertado nas varas se é que assim foi e creio terá sido, robusto, fornidos 14º, vinho escuro, arquitetado. E pensado também. E nisto de criar vinhos, há ali saber. Arte. Também se idealizam. Estou em crer que assim seja. Há ali demasiada história, lastro, que este Vinha Paz Reserva Touriga Nacional 2020 trouxe tudo com ele. E, todavia, simples, aveludado, autêntico. De companhia.
Sim, ando demasiado “entourigado”, mas de há muito que precisava voltar à Vinha Paz e, no andor dos dias, calhou a Touriga Nacional, um varietal que custou os olhos da cara, 36,50 euros em garrafeira, o que, convenhamos, assusta qualquer enófilo, sobremodo quando ele aparece, em tanto comércio, a 23,09 euros a botelha. Que haja o justo no produtor, que eu me quedo. Seja dia de festa, rilhando algibeira, arreganhei a beiça e deixe-me estar. Por lá ficou, desafiador, sumo fermentado de uvas cuidadas, e amadas.
Com este regimento de taninos assente na mesa, tracei-lhe umas tiras de barriga grelhadas, um singelo arroz branco, singelo e bago jasmin, essa excelente cama para feijocas dançantes, linguiça e cubos de lombo. Foi assim, como vos conto, que não me faltaram peitos para a empreitada. O Vinho é um deslumbre de serenidade. Guloso e comedor.
A história, conto-a no prontuário, mas atavio. A Quinta da Leira, e a adega naquela rua arejada e apertada, é em Oliveira de Barreiros, sub-região do Dão em Silgueiros. Dos dez hectares, sete deles são cepa velha. E generosa.
Os vinhos são produzidos pela família Canto Moniz. Ainda agora fui recordar retrato de quadro com o planeamento numa dessas vindimas, um bom amigo com quem muito aprendi e pelo Henrique, trabalhador, viajante e conhecedor incansável. Os dois tiveram a sageza de manter as vinhas velhas e é assim há muitos anos, séculos, como revela aquele bonito, e discreto, portão que é a imagem de marca do produtor e que se topa na curva da Nacional 231. Alegres os dias.


O vinho, fino e impecável de bem posto, bebe-se, degusta-se, aprecia-se no sossego.
Impressiona o porte. Feliz, nós e eu, pelo bródio.
Há cinco anos, quatro vindimas atrás no almanaque agrícola, a meteorologia pouco cuidou, até de noite se colheu, mas, no final, o que entrou nas adegas foram uvas escorreitas e sãs. Tesouras manejadas por quem sabe. Da vindima e da poda, esses mestres dos dias frios.
E este é um belo vinho, delicado, uma força subtil que se faz notar e o torna complexo, encantador. Entaramelar, eis o que me acontece de lhe extrair sabor, goelas abaixo. Presente. Uma valente Touriga Nacional, cá vou percorrendo o caminho das pedras.
O Vinha Paz Reserva Touriga Nacional 2020 é um senhor, guardador e sabedor. E, aproveitando o que sobra dos 14º, personalidade. Isso. Ínclito. E Deus me dê anos, mais uns poucos, para te voltar a encontrar, estimado vinho.






