
A rua é antiga e vai-se reabilitando. Aos anos que para ali caminho. Catraio do liceu, com latim em atraso, já na boavaiela, qual diplomata em Alcazar a espreitar à Varanda do Dão, tive ali explicações. Por 4 contos de réis, 20 paus nos dias de hoje, gramática e declinações, embalados pelas rotativas da Tipografia Martins.
Depois há a campainha, ao centro e por cima da mesa, tocando, nos atendiam. E, claro, por detrás do balcão que creio fosse de mármore, o bacalhau de molho, à antiga, nos baldes. Para os carnívoros costeletas. E vinho. Muito.
Hoje a rua é airosa, a Tia Iva abalou, a padroeira e a sucessora, e ficou um boteco de sotaques. Indo de Norte ou de Sul, subindo o Magistério Primário, onde eu passeei livros já Superior de Educação, ou descendo as escadinhas da Sé. Para o Rossio ou para a Feira, ficamos nós no 55 Brasil de Norte a Sul, do António e Tatiana Alves, ele lendário anfitrião, cozinheiro e restaurador. Desculpa lá, ó Alves, mas quero-te estalajadeiro.
Do Sul do Atlântico a baiuca toca carne assada no forno, mas já ali mastiguei, no antes, excitantes sabores. Fiquemos no agora e lá se passa. Comecemos pela sopa, caldinho na gíria do lugar.
Seduzido pelo nome, polenta em puré, explicado que é água, sal e farinha de milho que bailou com uma carne de forno, aquilo a que chamamos barriga ou lombo, com courato, que se mastiga, e esse puré de polenta. Depois, sim depois, uma galinha, com um tempero picante, trazido à parte, uma salada e uns feijões. Um regalo.
De outras idas, topei-a. Uma ementa diferente, um Brasil genuíno, picanha, cassoulet – essa feijoada, pastel Feira, carne seca e queijo ou o Baião de dois, carne seca, linguiça calabresa e queijo coalho. Churrasco, podia lá faltar, barriga de torresmo, 7,5 euros por boa carne, boa chapa, bom tempero. Também comi, a 4 ouros, corações de frango, grelhados, em espeto, como outra petiscaria que avulta na carta, que tem duplicado em inglês. Não é anfitrião quem quer, é quem sabe.
Sim, sou amigo dos proprietários, mas isso não incomoda o meu paladar, que se não gostar, desbraga-se. O meu feito rebelde, é conhecido de décadas do estalajadeiro. E nunca nos desmerecemos. Adiante e comida na mesa. O Chef Gabriel andou pelo mundo, sempre nas cozinhas, tem arte e bom produto, que lhe levanta questão de intendência. Mas com fervor, e viagens Atlântico a Sul, volta a Norte, o que calha nos talheres tem origem.
Nos beberes, caipirinha e sangria. Há também o vinho de serviço, da casa, o 55, produzido pelo Carlos, na Quinta de Penassais e com chancela DOC.
Um intermezzo, para uma trincadela na memória. Em meados da década de 90, esta empresa fornecia, engarrafonado, uma das melhores churrasqueiras da cidade. Foi o vinho que alavancou o negócio. Que hoje tem duas caixas registadoras. Sabeis lá o poder do vinho. E este Quinta de Penassais tinto reserva 2018, vendido a 3,5 euros o copo, é vinho de vigor. De vigor e rigor. Qualidade e atenção nos pormenores, com um vinho de lote, creio de conhecer as vinhas e acompanhar vindima Touriga-Nacional, Alfrocheiro e Jaen. Entrei-lhe de copo vazio, foram dois e muitos cigarros. Encorpado, persistente, com robustez e final de boca muito macio.


Vamos, também há brancos e não vou discutir esses 14º do Penassais, mas dizer que o tinto calhou bem com a comida. namoro sem premissas, provado e saboreado. Muito bom vinho, estando de serviço. é mister. Com assinatura do José Carlos Oliveira.
Tudo no boteco, que, no final, qual especialista, há aguardentes brasileiras, cachaça de alambique.
Sei, prometo livro breve, que a cachaça é um destilado que tanto pode ser produzida em alambique de cobre quanto em coluna, dito quase industrial para várias destilações.
No alambique tradicional português mosto e água são misturados, mas no alambique de coluna o pote de cobre funciona apenas como gerador de vapor, a matéria-prima é colocada na coluna. Eu, de sapato novo e pé velho, antes alquitarra, capacete e condensador. Destilar é uma arte.
E no Brasil, para espanto meu que ali tinha bebido uma antes, há muitas cachaças. Mas de alambique? Ena. Artesanais.
Acabei, contra o pregado, mas ainda lhe arranquei profusos minutos de gravador, por não pagar a conta. Impropérios acima, lá me disseram pelo que comi e bebi, prato do dia partilhado, 14 euros. Na mesa ainda uma tradicional feijoada, que pouco estiquei.
Se acrescentar as aguardentes, são 20 mil réis por um resfolegar ao sol, amesendado na inclemência do chuvisco, sala bonita, airosa, gostosa e uma pool de funcionários de sala, cozinheiros, barmans, enfim, com bom acerto, despachado e sabedor. Conhecedora também, a senhora da Baía, que não fixei o nome, rendido à simpatia e à bondade. Coisa que nem pressentimos, mas que nos toca. Gostei de conhecer vossemecê Menina, alma dessa Baía, esse “esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”. Cacau, disse-me a Tatiana. E eu, de rogo e prece, percebi tudo. Feijão-fradinho





Bebi, a conselho do anfitrião, a Cachaça Matriarca, vinda da Baía. Iemanjá nos ajude! Acabada a garrafa, fiquei ali em excelente esplanada, a ver a Sé e a cidade que se alonga ao norte de Viseu, espraiado pelo proscénio. E a coçar a barriga.






