Este custou-me pouco menos de três euros no supermercado, marchou com
castanhas num fim de tarde domingueiro. De 2021, o Foral Dom Henrique nasceu
na Adega Cooperativa de Mangualde em 1989, creio ser este o ano em que a
marca foi lançada, dançou com as castanhas, da Lapa, assadas na Air fryer.
Modernices da vida doméstica, com um vinho solto, de preço minguado, um Dão
resguardado pelo tempo e pela paisagem, verde no Verão, amarela e castanha
no Outono, viçosa na Primavera.
Vinho de lote, a que o jargão do negócio apelida de blend. O truque é
agrupar os vinhos, para que a bordadura e a terra permitam extrair-lhes o
melhor.
Neste entraram a Touriga Nacional; Jaen; Alfrocheiro Preto e Tinta Roriz.
Nada de novo, este é um lote tradicional no Dão, que produz cerca de 50
milhões de litros de vinho em parreiras espalhadas por sete sub-regiões, uma
delas a de Azurara, em Mangualde, concelho com vários produtores.
É subir ao Pranto, em Guimarães de Tavares e vir descendo, há “Chão da
Vinha”, quintas, incluindo a “Quinta da Vinha Morta”, nome curioso, mas as
cepas estão lá.
Com uma localização privilegiada, vigiado pela Serra da Estrela, sempre
presente na linha do horizonte, o cenário tem muitos forais outorgados por
D. Henrique e D. Teresa, memórias cistercienses, no recuperado Mosteiro de
Maceira Dão.
A Adega Cooperativa de Mangualde, fundada em 1963, tem neste Foral o começo
da gama e ele não foge ao esperando. Rubi, macio e taninos redondos, final
persistente no lote típico do Dão: Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro Preto
e Tinta Roriz.
Simples, extremamente barato, agruras da distribuição e da muita capacidade
instalada, não deixa de vingar um bom fim de tarde.
A Adega investe nos anos 90, quando o Dão acordava, precisamente em
Mangualde, para a sua segunda vida. Modernização na produção, centro de
vinificação e estabilização para vinhos e uma linha de engarrafamento
própria, que trouxe vantagens, mas também amarguras.
A ligação entre turismo e agricultura, está começada, o enoturismo que já
responde, no país, por 20% das receitas do negócio vínico; está lá e
atrativos não faltam, se quiser fazer a demanda e chegar a Azurara. Lá está
Centro Interpretativo da Vinha e do Vinho de Mangualde, exposição
permanente, e muito trabalho.
Este começo de gama é cativante, bebe-se ligeiro, e desliza bem, em copo
próprio e arejado.
Estranhamente, como me acontece amiúde, no dia a seguir, ainda com castanhas
frias e um resto de lacticínio feito em La Mancha, estava mais solto e
guloso.
Bebi-lhe o resto ao Sol e, digo-vos, é um vinho enxuto e barato. Mas
companheiro adequado ao quotidiano.






