Encruzado ao caminho


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Encruzado ao caminho

Mal subi a Pinoca, relampejou-me a vontade de provar o Encruzado 2022, das Fidalgas de Santar, que tinha bebido em 2023.

À época, um dia de sol formoso, celebrávamos o novo restaurante do Henrique Sampaio, o Tertúlia e a presença na sala do João Gouveia Rego, o produtor, empurrou-o na minha mesa.

Tenho esta mania de não beber vinhos do ano anterior, cada palerma com a sua toleima, mas tombámos duas garrafas. O dia ia de calor, a conversa dedicada, o Afonso ia ver mundo, a comida era garantida e ali ficámos, a roer não sei já bem o quê, mas a bebericar o noviço.

Em bom rigor, gosto que eles esperem dois anos depois da colheita, porém a Tertúlia é compêndio de repastos inesperados. E bebeu-se bem, mesmo de novo.

E retomo. Num destes dias em que me ia a Espinho, de Mangualde, ao subir a EN-231 veio-me a inquietude. A curiosidade de lhe perguntar como ia.

Tratei dos meus afazeres, parei nas Fidalgas de Santar. O “patrão” não estava e eu não sou de avisos. Mas fui bem aviado.

Lá veio o Encruzado de 2022, agora com quase dois anos de garrafa e tinha os aromas simpáticos, florais como alguns dizem, mas já se pressentiu ali corpo, untuosidade.

O Fidalgas de Santar Encruzado 2022 custa cerca de 12 euros, 22 na restauração atinada, que na desalinhada andam doidos e perdem em circulação de stock o que ganham, ou julgam ganhar, em caixa.

As vinhas são em Santar, onde o João está a plantar mais, já não lhe notei a acidez inicial do primeiro ano, antes a gula que pede ainda mais um pouco de descanso. Mas não exageremos, já pode correr à tromba rija.

Muito bom, matinal, valente.

O Encruzado é essa casta que é das nossas, que se aguenta bem com os frios e com os calores e simples de beber. É vinho, do bom, a solo ou em orquestra nos lotes, que ganha estrutura, peso, vigor, corpo e que me deixa magicar o granito onde foi plantado.

Calibrado de doçuras e acidez, melhorará com o tempo, tenho uma garrafa escondida para as emergências, tem guarda e gosto de o ver a escorrer, lentamente, pelo copo abaixo como o sol matinal que se levanta para acariciar, mas primeiro se espreguiça.

Ainda dança algures entre o amarelo e o dourado, e fica ali a meter-se connosco, reclama beberagem e voluptuosidade. Coisa que esquecemos amiúde e que só a idade traz. E este vai ter uma boa adolescência.

Para já, merece a outorga de Santar, vila destratada, de boas encostas e socalcos.

O Fidalgas de Santar Encruzado é um vinho capaz de trinchar carne, um bacalhau e, desconfio, peixes braseados. Lá chegarei a essa cutelaria.

Um Encruzado a bom preço, qualidade que não desilude. E melhora com o ano, provado aqui há dias já tinha untuosidade própria dos vinhos longevos, ainda vai melhorar mais, mas esteve muito bom a desentaramelar a língua numa manhã de Outono.

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