Voltei lá pelo queijo. A bem dizer, talvez tenha sido o amor a levar-me. Não
costumamos repetir, numa semana, a mesma mesa. Mas também tinha a
consciência pesada.
Aqui atrasado, como adoro esta expressão, num jantar, já com três MOB
aviados na Sé, sentei-me no deRaíz e aviei uma costeleta de Vitela
Mirandesa, sem queijo e uns legumes. Segui-lhe num queijo e vim assim
embora. O miúdo estava acampado, eu queria ficar descansado.
E assim trouxe uma fatia de queijo, escondida no bolso da minha camisa, um
zé do telhado dos queijos. Só dos velhos, claro. Provada em casa, mais vinho
que abonde.
Num destes domingos a Anita quis voltar, porque o Afonso não tinha estado.
Fomos de almoço, sem missa. Eu, de apetites a reclamarem bacalhau cozido,
batata, ovo e grão, a nadar em azeite, safei-me com um lombo de bacalhau,
broa, batata e uma gema de ovo. O Afonso marchou no Atum à Bulhão Pato e a
mãe de pato assado. Menores e de pescoço mais curto, os patos pertencem aos
Anatídeos, mais pequenos que cisnes e gansos, todos eles primos.
Arroz, enchidos e pinhões. Coisa singela, de muito trabalho e gratidão a
quem o faz, que os perecimentos são para quem o mastiga.
Do antes, as iscas de pato, a massa tenra e umas deliciosas pataniscas de
camarão, coentros, lima em maionese.
Na carta há outros sabores: bacalhau à Brás das avós, costeleta de vitela
mirandesa certificada com queijo da Ilha; borrego de leite grelhado e
ossobuco.
E comemos da lista, é poiso que tem bom trato, magnifica dispensa e
excelência na cozinha. E garrafeira robusta, longa e aprestada.
O Nuno Fonte e a Inês Beja percebem desta culinária, saber para resgatar
sabores antigos, mas, a verdade é para ser dita, eu fui pelo queijo. Um
velho Queijo da Serra, envelhecido pela cura.
O deRaiz já foi Jasmin, recebeu até conclave de jornalistas e hoje é um
templo, uma igreja, melhor, uma catedral do bom comer.
E sim, o sino toca para nos lembrar a ruralidade, os muros em pedra, as
oliveiras e as hortas. A Beira toda numa mesa de três.
E os créscimos. Esse queijo, curado. Velho. Desta feita trouxe umas fatias
que o paladar do Afonso já aprecia.
E devíamos esquecer alguns queijos na prateleira, a cura tudo melhora. E
mais. Quebradiço, alaranjado, sem olhos, sabor picante, forte e persistente.
A reclamar aguardente, que veio e namorou ali mesmo, a entreter a conversa
no largo da aldeia, que foi posta no mapa e gera rendimento.
De portas abertas desde 2019, o restaurante deRaíz apenas reclama um
préstimo: mão ligeira para coçar a barriguinha!!!






