Adega de Penalva Tinto Touriga Nacional 2020


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Adega de Penalva Tinto Touriga Nacional 2020

Não sou devoto de santa Touriga Nacional. Capto-lhe a importância, aprecio-a no lote, em solilóquio foi devaneio domingueiro. Sozinho na bruma, acabei o jornal e, ainda não batiam as onze na igreja, já a botelha respirava. A idade, essa preciosa sabedoria, apontava-lhe quase 5 anos, dos agrícolas. Produzido em 2020, rótulo sábio, bonito, e informativo, calhando ruim haja melhor rolha que se exige. Filtrado e decantado, plácida rudeza, arrebatou à mesa com 13,5º, convenhamos, o ideal para almoço em dia cinzento.

Antes, provei-o na solitude da vidraça, prova crua, já com três, dos pequenos, almoços mastigados que a madrugada fora de escritaria. Assim, ela e eu, um leve amadeirado, macio o vinho, toda a Beira numa garrafa e eu, lá longe, perdido em Santo Ildefonso, no granito e nos pinhais. Austero.

Tranquilo, nada afiado e sem redondezas, puxei cigarro, e adstringido, narinas cheias e palato deliciado. Sim, 4 anos e uma leveza bem estruturada, um vigoroso final de boca, resistente, a pedir mais. Haja boas uvas, e saber no trato, e teremos sempre bons vinhos. Este diz de onde vem, com subtilezas, que se descomplexam a cada golo travado na língua, uma dançarina com os taninos bem presentes. É esperar por eles e lá vem aquele vinho que nos desafia.

Criado na Adega Cooperativa de Penalva do Castelo, mil associados, que cuidam de mais de 1200 hectares de vinha, podia ficar a bebê-lo, ao vinho e à Touriga, um dia inteiro, tal o desvelo; mais-valias do importe de 6,49, no supermercado.

Bom vidro na borgonhesa e andemos a Penalva, ao Castendo, uma das nossas, muitas, especializações. Em cepas e solos, o Castendo dá-nos exemplares como este Dão, Touriga Nacional eriçada, notas florais, fruta e presença.

A Adega, onde este pousado, foi constituída em 1960, tem capacidade de vinificação de doze milhões de litros de vinho.

Nos comeres, um rolo de carne com uma farinheira no bucho, umas achas de queijo velho e casqueiro do dia. Umas batatas no forno e umas cenouras estufadas, eis, em pleno a orquestra antes da sesta. “Comida mística”, apelidou-a o Afonso das regras.

Ditos os secos, nos molhados, um vinho vermelho carregado, brilhante, intenso, atraente na escrita, taninos irreverentes, frescura de boca. Há mais?

A importância, a marca per si, Touriga Nacional, o valor económico, a história e a cultura envolvidas nesta casta têm de ser rentistas. Deixar euros na região, sem castrar o apreciar de cada um, pois cada qual bebe o que melhor lhe aprouver. Importa flanquear pendão, que todos a levam, e o veludo tem aqui, nas nossos vinhedos, terra mãe, como atestam, se preciso fora, as mais de 30 variedades, clones em sendo lavrador, que o Pedro Figueiredo cuida na Falorca. Solo místico, a comida lá terá alquimia com o tinto. Sim, ainda preparo o ritual para o solstício de Inverno…

Por lá já esqueceram, e se não esqueceram deviam beber outra garrafa, de uma grande determinação e retribuição. Embora marcada pela pandemia e pelas condições climáticas irregulares, que exigiram muitas mudanças e olhar minucioso às cepas, a vindima de 2020 pediu cuidados, trouxe devoção.

Abrolhamento precoce, avanço na fenologia, aceleração inopinada nas maturações.

Pouca chuva, tempo estável, boas uvas à entrada da Adega. Excelente acidez, e muito boa intensidade aromática.

Como este elegante varietal, todo ele Touriga, um vinho sério, com carácter e poder de atração. Incrível, a qualidade preço, lavradores e consumidores é que sabem.

Ajustei-lhe com a marmelada, genuína em pote de barro, um Rabaçal a meia cura e fiquei-me no encontro. E ao mercado. Marmelada, queijo e Touriga, aliás, longa vida à Touriga Nacional. E a generoso triúnviro. Munífico, o vinho, munificente a Touriga.

Escondei umas botelhas, às pressas, porém não esqueceis o beber.

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