Aberta a garrafa, chega-nos um aroma fresco, mineral, estruturado, intenso e com vontade, mania minha, de esconder algumas garrafas. Da colheita de 2023, ainda jovem, mas já vigoroso e profundo. Há ali arte, saber, despertar. Sobressalto com o palato e namoro, muito, com um vinho portentoso e outra tanto, ou mais, para dar.
Pousado, a abrir, anotei que a vindima de 2023 resultou de ano de pouca chuva, mais quente, com cachos médios a grandes a entrarem nos tegões, embora tenha havido uma diminuição da quantidade, com um agosto a assistir ao começo da grande colheita, sinais dos tempos.

Destas condicionantes resultou este belo vinho, macio e muito mineral. Bem calibrado, equilibrado, de boa acidez, com 13º robustos que contribuem para um vinho autentico.
O Encruzado, que nos últimos anos tem assistido a um crescimento de vinha plantada no Dão, é o Salgueirinho, legado de Alberto Vilhena e do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão – eis para o que serve se não for para mais nada, em Nelas.

As vinhas da Kelman, plantadas há um quartil de ano, são disso exemplo e mostram como os varietais nos encantam.
Eu, que os descobri em lotes criados pelo Brites na Adega de Tondela com Malvasia-Fina ou Cerceal, adoro-os e num destes dias tirei uma tarde, pela mão da Anita e com o Afonso, só para encruzar, quatro, ou cinco, belos encruzados para uma tarde familiar, feliz e de companhia conversada.
O Dão é rico pela variedade das castas, mas o Encruzado, além de amigo do lavrador, é vinho que brilhar a solo e quantos mais anos, para mim, melhor. A 17 euros, na restauração, mostrou-se de cor lima, brilhante, garboso, acidez bem viva e já a crescer no corpo, com um longo final que nos lança a inquietude.
Podemos beber outra garrafa, Anita?






