Bebei-o, quase, sozinho e tive castigo. Apesar de, temendo uma rebelião familiar, tenha deixado um quartilho para a provadora “clandestina” deste Armazém do Dão e com quem discuto muito sobre vinhos. Achei-o tão bom que, atrevido e guloso, fui buscar mais meio quartilho e foi aí que me chegou a advertência. Escrever e copo em cima da mesa é cousa que me alegra a mente e alarga a inspiração. Ora pousado o copo, qualquer tremor, derramou precioso briol na secretária. Ficaram as marcas na agenda, a reprimenda de minha Mulher, que o achou belíssimo e me acusou de sovina, como que, quer tudo e não partilha nada. E quero mais deste, que ainda tombámos recentemente, um outro do mesmo produtor, noutra jornada.

A pinga, bem sei que a minha escrita incomoda puristas mas eu bebo vinho e não enxergo pimentas, tem uma mineralidade vivaz, boa acidez, em resultado de uma fermentação lenta, seguida de batônnage, o agitar do vinho quando
em contato com as borras que ficam no fundo e acrescenta textura e complexidade. E assim, vem, elegante, fresco e vivo. Macio no beber, um longo final e saudades que nos deixa.


Produzido na Quinta da Pellada, situada a cerca de 500 metros de altitude nas encostas da Serra da Estrela, este vinho branco beneficia dos dias quentes e noites frias, que preservam a acidez natural das uvas. Eis um dos motivos que, ultimamente, me leva a subir à montanha, onde os solos graníticos aportam mineralidade, promovendo maturações lentas e aromáticas. E o vinho, e nós com ele, vibra. O produtor, um dos mais sábios que temos no Dão, pressuponho que saiba isto tudo melhor que eu, até porque a Quinta da Pellada tem registos que nos retornam a 1570. Já as vinhas têm entre 5 e 20 anos, com de 5000 pés por hectare. A densidade de plantação, ou seja, o número de pés de vinha por hectare, é crucial na viticultura, traz impacto significativo ao crescimento da videira, na qualidade da uva, na quantidade e gestão da vinha. É como vos digo, Álvaro de Castro é príncipe.

Do que não apreciei foi a escassa informação no site do produtor, e calculo que, à semelhança do de 2020, este 2022 tenha o mesmo receituário: Encruzado que traz estrutura e longevidade; Bical, amplia a acidez e notas cítricas; Malvasia Fina, a suavidade e, por fim a Cerceal e a leveza. A vinificação
A vinificação beneficiou do breve contacto pelicular, fermentação lenta durante dois meses, o que contribui para maior complexidade e integração dos aromas.
Tudo isto deu-lhe leve marca citrina, entrada suave nos lábios, cremoso e uns generosos 13º que lhe deram persistência e ajudarão à longevidade. É experimentar, senhoras e senhoras, é experimentar.


A vindima de 2022 trouxe aceleração vegetativa com uma Primavera seca e quente, tal como o Verão que beneficiou das noites frescas da montanha e foi crucial para preservar a acidez. Bem sei, menos produção, mas boas uvas que deram brancos intensos e acidez robusta.

O Álvaro Castro Branco 2022, a 10,20 euros a botelha, é um excelente exemplo de como a altitude pode moldar um branco, que me ensinou o valor da partilha e que nunca deixa de surpreender. Pois, o momento também ajuda à prova.






