No emaranhado de ruas que é Oliveira de Barreiros, sobram ruelas, adegas, vinhas e janelas para o lagar. Da geografia, o Dão ao fundo, a vinha do Contador ao longe, e, na atalaia, a elevação onde fica a Quinta do Amandinho, hoje na terceira geração.
A Perpita é um enlevo de vinhas, mas, no que me inquietou, de tecnologia. Lagares em cima, no andar térreo, cubas de mil litros e muita história. Isto, pensado há 120 anos, quando a eficiência energética ainda nem sequer aparecia no dicionário.

Esta sim, também, é terra da vinhateiros, de famílias que emprestaram nome e saber à qualidade destes excelentes vinhos. Máquina oleada, como quando sopram os aromas do mosto, escapadios pela janela, onde, docemente, caem as uvas ao tegão. Ou lagar, para sermos precisos e enxutos.



Bússola, Nacional 231 e, depois da Baiuca reparo às casas dos vinhateiros. A Perpita exige cortar para Silgueiros, logo após a Escola Primária, um corte à esquerda e lá estamos.
As caixas, relevo tocado a tintas por mãos sabedoras, identidade no rasgo, esse afagar da identidade. Desenhadas por Eduarda Magno, arquiteta, possuem no relevo das letras o reflexo desse amor e cuidado pelas vinhas saídas em herança.

“As cepas estão arrumadas em talhões, caminhos de permeio, aqui o Jaen, ups, esse está de viagem, ali o Alfrocheiro, acolém a Touriga Nacional e aqui o Encruzado, noutro patamar o Bical mais acima”, descreve Kennedy Magno. Estrutura e tempero, como diz o agrónomo, o vinho faz-se na vinha. Tinto e Branco. Sim o Bical, eu gosto do nome velho, mas precisamos sacrificar as letras em nome da sofisticação, biodiversidade e tradição nesta Quinta da Perpita, capaz desses field blends, Frescura, leveza e esse carácter rústico no vinho. E a Touriga Nacional, personalidade, mais o Encruzado, que vai ganhar quota de solo, diz-me o Kennedy que “é preciso pensar no mercado, nos consumidores e no perfil de vinho que queremos”. Deste, dos vinhateiros que estão ali nas quintas aos socalcos.
E que esperamos para este ano? “Tivemos água e calor na altura certa, esperamos colher qualidade e maior quantidade”, anota Gonçalo Magno, o agrónomo da Quinta.

A Quinta da Perpita é mirante do Dão, talvez a de maior altitude na sub-região de Silgueiros, seis hectares de vinha, 7 mil garrafas e história centenária. O “Amadinho”, um dos ilustres vinhateiros de Oliveira de Barreiros que deixam legado, é, em rigor notarial Amando Ferreira de Almeida, agora na terceira geração.

No encepamento estão Touriga-Nacional, Alfrocheiro, Tinta-Roriz, Jaen, Rufete ou Tinta Pinheira se preferirem, Encruzado e Malvasia-Fina.

Há proteção integrada, nada de irrigação, a sedução do clima ao vinho e aí, bom, é o Dão e cada colheita anual fale por si. Caprichos que ditam sabores e aromas minerais, frescos, delicados, tranquilos, de beber, escutar a passarada e o murmúrio ao rio e estar. De copo na mão, olho nas cepas e sentir. E agora, que me abalo, por onde me faço ao caminho? Bom, se me pergunta, eu lhe direi. Descia a Passos, subia aos Três Rios, e tomava a Rota do Dão, logo ali adiante, com vistas à barragem e meia-volta volver. Sim, ir e vir, pela Foz do Dão, tomar a Estrada Velha de Viseu.
Bom acabamento à jornada, o pipo e as cunhas, as aduelas, tábuas curvas que ali também há história profunda cavada na rocha e não são essas pedras, antes cunhas, arcos e abóbadas, o vão da janela, pegado ao lagar.
Sim, não relevei. Perpita. Ora, tomado de leitura um dos documentos da biblioteca do futuro, lá temos este termo pouco comum na língua portuguesa, listado com pepita.
Significado, uso e legado. Perpita, que o Amandinho bem o sabia.






