Dona Sancha Rosé 2025


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Dona Sancha Rosé 2025

Embirrei com o vinho e com a marca, manias minhas que reclamam mais responsabilidade social, adiante; minha Mulher, que tem um nariz apuradíssimo, diz-me que o aprecia. E muito. Seja. O Dona Sancha Rosé 2025 é uma celebração das castas autóctones e da identidade vitivinícola de Silgueiros, no coração do Dão. Produzido pela Quinta Dona Sancha, este lote reúne quatro variedades tradicionais da região, Jaen, Tinta Pinheira, Baga e Tinto Cão, cruzando diferentes expressões da vinha numa composição que procura aliar frescura, estrutura e elegância.

A colheita de 2025 dá continuidade a uma herança profundamente enraizada no território, onde a tradição vitícola e a singularidade dos solos graníticos contribuem para definir a personalidade dos vinhos. Com a indicação DOP Dão, sub-região de Silgueiros, o rosé afirma desde logo a ligação à origem e a uma das paisagens vitivinícolas mais emblemáticas do centro do país.

No copo, apresenta uma tonalidade rosa-salmão luminosa e apelativa, com reflexos que, sob determinadas condições de luz, adquirem nuances mais acobreadas. No nariz, revela um perfil aromático marcado pela fruta vermelha fresca, com a groselha em evidência, acompanhada por apontamentos cítricos de toranja e delicadas notas florais que evocam pétalas de rosa, as que se plantam nas vinhas para sinalizar o andamento à maturação e outras evoluções ou chegadas indesejadas. A combinação proporciona uma expressão aromática fresca e delicada, sem dispensar a complexidade que resulta da conjugação das diferentes castas. É um perfil que privilegia a definição da fruta e a subtileza, mantendo uma identidade própria no universo dos rosés do Dão.

Na boca, o vinho procura o equilíbrio entre frescura e textura. A acidez confere-lhe vivacidade e sustenta a expressão frutada, enquanto a untuosidade acrescenta volume e impede que a prova se esgote num registo excessivamente ligeiro. A frescura, longe de se limitar ao primeiro impacto, acompanha a evolução do vinho no palato e contribui para um conjunto harmonioso. O final seco e persistente prolonga as sensações de fruta e frescura, deixando uma impressão equilibrada e convidativa. Com 12,5% de álcool, apresenta uma estrutura que favorece a versatilidade gastronómica, sem comprometer a leveza e a fluidez que se esperam de um rosé desta natureza. Custou, na restauração, 16 euros, no mercado anda pelos 12, o que também mostra como as minhas reservas são sensatas.

A identidade do Dona Sancha não se esgota, porém, nas características da prova. O próprio nome recuperou uma memória histórica ligada a Silgueiros, em 1186, Dona Sancha Gonçalves e o marido, Daganel – outra marca de vinho, instituíram o padroado de Santa Maria de Silgueiros, referência evocada no rótulo. Esta ligação entre património, território e viticultura confere ao vinho uma dimensão narrativa que ultrapassa a garrafa, que me surpreendeu pela qualidade do vidro, ombros inclinados e arredondados. O desenho delicado do rótulo, dominado por tonalidades rosadas e elementos ornamentais de inspiração clássica, reforça essa intenção, conjugando referências históricas com uma apresentação contemporânea. No verso, o produtor recupera poeticamente a paisagem de Silgueiros e a complexidade ancestral das suas vinhas, sublinhando a importância do saber transmitido entre gerações.

A sub-região de Silgueiros insere-se numa paisagem marcada pela influência dos solos graníticos e pela diversidade de condições que caracterizam o Dão. É neste contexto que as castas tradicionais assumem particular relevância, contribuindo para a expressão da origem e para a preservação de uma identidade vitivinícola singular. No caso deste rosé, a conjugação da Baga, do Jaen, da Tinta Pinheira e do Tinto Cão procura traduzir essa herança numa interpretação contemporânea, em que a frescura e a fruta se articulam com uma presença de boca mais envolvente. A garrafa apresenta-se, assim, como uma expressão da continuidade entre a tradição da região e a procura de vinhos capazes de responder a diferentes ocasiões de consumo.

À mesa, a frescura, o perfil frutado e o final seco fazem do Dona Sancha Rosé 2025 uma escolha natural para acompanhar petiscos, como foi o caso e ainda acrescentou paladar ao arroz negro, de choquinhos e tentáculos de polvo. Fresco, mas não excessivamente frio, revela com maior clareza a expressão aromática e o equilíbrio entre fruta, acidez e textura. E acompanha bem com os meus cigarros, entre refeião e na aragem fria do Outono. Mais do que uma garrafa pensada exclusivamente para os dias quentes, encontra na versatilidade gastronómica e na ligação ao território os seus principais argumentos. Um rosé que convida a prolongar a conversa à mesa, transportando consigo a história e a personalidade de uma das zonas mais características do Dão.

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