

“Eu sou Aquela de quem tens saudade”. Gosto do A maiúsculo, ali no verso de Florbela Espanca. Apaziguador. Possante e, bem, encorpado. Chegou assim, já com este sol florido. Tinta Roriz, Jaen e Touriga Nacional mereceram o Sol desta Primavera, soltas em lote gotejado ao copo, um Zwiesel Glas, marca com quase dois séculos e que merece a honraria de servir este tinto, cinco vindimas depois e a que deitei mão cansado da programação, escrita e provas. Caramba, um homem também tem direito a olhar, de longe, a neve na Estrela. Não, diz o compliance. Seja.
Calhou em começo de tarde feliz, com ervilhas e ovos escalfados, cenouras, chouriço de colorau, nacos de bacon e começo de bom azeite e melhor cebola, brava, nos preparos. O vinho está extraordinário, vivo, agradável, boa fruta, por lá do Jaen, melhor cor da Tinta Roriz e caboucos na Touriga Nacional. Um dia, já os vejo fazer há anos, entrarei nesse cofre dos saberes e anotarei receita de lote, esplendido como este. Maduro, macio, capaz de me encher a boca e telegrafar ao palato quem chegou. Possante.

Cinco vindima depois, e confirmando in factu, latinidades para questionamentos, genealogias, mas dizia, cinco anos agrícolas após a colheita as uvas mostraram o que foi o ano vitícola 2018-2019. Estabilidade na meteorologia, bom começo no ciclo da videira, poucos sobressaltos ou imprevistos. Esses ficam para os madraços, como eu, que se prazenteiam com o que as cepas prometeram, há uma mão cheia de vindimas atrás. E o folguedo de o beber neste agora.
E aí está este Mariposa Florbela Tinto 2019, ano distinto, com vinhos muito aromáticos. Rústico, de honesto para goelas mais sensíveis à orografia das palavras. Inox, fermentação lenta, suave remontagem e lá estão as uvas, fruto que se bebe e agradece. Intenso, de final doce, apalavrado, grato na fraternidade de lavradores, feitores e bebedores.
A Quinta da Mariposa, cartografada pela Lúcia Freitas a partir dos ensinamentos do avô. Esteve no começo do Dão moderno e arejado. Todavia, e em certos dias, temos que o lembrar em nome do estilo, da arte de criar vinhos, uma região com lastro na história, antiga, moderna. Personalidade é esse o inconfundível Dão este é o Dão que precisamos. Enxuto, cosmopolita e sofisticado, sem esquecer de onde vêm as botas que calcam veredas e os pés que cá caminham. É preciso mexer, vaguear, semear.
Um vinho para “um doido que partiu numa romagem”!






