A Quinta de Reis, a meia dúzia de quilómetros do centro da cidade de Viseu, permite não só por os dois pés dentro da vinha, como passear a cavalo ou descansar horas a fio numa imensa varanda por onde se espreita o Dão.
A quinta deve o nome ao republicano Amando Ferreira Reis, que em 1924 aqui fez casa. Tem terraço com vista para a Estrela e vinhas onde o médico descobriu nova paixão pois como diz “fazer vinhos é um ato de amor. Desde o carinho que damos às cepas ao desvelo que pomos na vinificação e envelhecimento.
São 14 hectares de vinhas com cepas plantadas há mais de 2 séculos e taninos feitos a quatro mãos.
Desde 2003 que a quinta está nas mãos de Jorge Reis, um médico aposentado que “foi a correr tirar um curso de enologia”, conta o próprio que tem em Miguel Coelho, um químico filho de Magalhães Coelho que foi o grande estudioso do Dão, o outro par de mãos que ajuda a fazer vinhos extraordinários, com um preço extremamente simpático e qualidade assaz assinalável.
Nem todas as vinhas são novas que Jorge Reis é adepto das enxertias e das cepas velha que permitem dotar o vinho de carácter e de sobressalto.
Bebem-se em boa companhia, despertam curiosidade e são intensos.
A vinha esconde uma velha casa, construída pelo republicano Amando Ferreira dos Reis que deu nome à quinta e alberga escritório, laboratório, adega, sala de provas e de estar. Mas é na varanda, mesmo nos dias frios, que os vinhos devem ser bebidos. Se o sol espreitar experimente levar o copo para a bordadura da vinha e aproveite para contemplar os dois andares desta casa que, em breve, terá no segundo piso um alojamento local.
Na grande cozinha é onde a química de Miguel Coelho funciona e por onde se entra nesta casa do vinho que já foi escola.
As cepas crescem entre a floresta e as oliveiras, cuidadas por Jorge Reis que a 440 metros de altitude tira partido de ter o Dão a escassos quilómetros e com isso solos graníticos e arenosos. Foi em 2003 que Jorge Reis se aposentou e começou a recuperação da vinha, dividida entre tina, 85% e branca. Conversador nato Jorge Reis tem quilómetros de histórias para contar, sobretudo as que passou a dar a volta ao país numa genuína pão de forma, alemã e restaurada pelo próprio médicos.
As uvas brancas são da casta Encruzado, que tem sempre gavinhas nos entre-nós, mas há ainda Bical e Arinto do Dão.
Os vinhos que provamos foram o Encruzado de 2010, fermentado em inox e, mais tarde, em carvalho. Fino e elegante. Soberbo e mineral, com alguma acidez, mostra-se atreito a envelhecer com dignidade e garbo.
Evolui bem na garrafa e não é esquisito de companhia, tanto vai bem com sushi como com vitela. É um vinho extraordinário feito por um produtor discreto.
Experimente bebê-lo em novo, de caracter discreto, e atraque-o ao copo passados alguns anos. Verá que os aromas estão mais intensos que nunca. O nosso casou com a Bical e o Arinto e a boda decorreu em carvalho francês. Na boca há textura, gulodice e um travo final que recomenda mais vistas para a estrela, mais terraço e, deve ser por isso que os lá deixaram, um cadeirão de verga. Citrino, floral, perfumado e fresco encontra-o a cerca de sete euros na maioria das garrafeiras.
Nos tintos a conversa é outra, mas o labro de médico e químico produz taninos calibrados, supimpas que pedem queijos apaladados ou carnuça da boa. O caracter rude do vinho está lá, mas há uma aragem moderna que lhe dá tons de café num paladar enxuto mas vigoroso, quase como quem parte em viagem mas deixa saudades. Os tintos recomendam-se sobretudo para as tardes de inverno solarengas ou nos doces arrastares da lareira, quando mastigamos o vinho entre duas golfadas de conversa.
O vinho, me perdoará o médico e o químico, tem alma de viajante, ideal para destilar conversas, saudades e dar uso à palamenta, sobretudo a uma bela faca que corte carne tenra, suculenta e impregnada de batata nova assada e cenouras. Sim, cenouras que apesar de discretos os taninos aspergiram um pouco dos cedros e dos pinheiros da quinta que, tal como os vinhos, tem alma.






