Bebi-o, pela primeira vez, numa manhã de calores estivais e garganta seca. Fino e delicado, sendo veros, não chegam para comentar um vinho, monocasta Encruzado, que transcende botânica para se afirmar como uma epifania enológica. É uma uva que, na sua elegância silenciosa, captura a alma granítica da serra e a bruma mística dos rios. Longe da exuberância aromática de outras castas brancas, o Encruzado revela aromas e sabores de subtil complexidade, um desafio erudito para o palato e uma promessa de longevidade na garrafa. Um pequeno percalço, na rolha, não me impediu de o apreciar, de aperitivo, num domingo familiar e de conversas na varanda.


Cor amarela citrina, límpida e brilhante, de aroma intenso, complexo e elegante, com notas de fruta de polpa branca, nuances florais e minerais, que lhe conferem uma personalidade distinta. E é na mineralidade e no floral que temos essa epifania. De boca, bom volume, fresco e equilibrado, com uma acidez viva e um final requintado e persistente. É um vinho que demonstra grande potencial de envelhecimento, tornando-se mais complexo com o tempo.

É considerado um vinho ideal para ser consumido em dias de sol, a oito euros a garrafa, produzido pela Quinta da Perpita, uma propriedade localizada em Oliveira de Barreiros, na sub-região de Silgueiros, no Dão. As vinhas, esculpidas em socalcos de altitude, e os solos de origem granítica, emprestam-lhe uma mineralidade quase telúrica, uma estrutura que a distingue. O Encruzado não é um vinho de juventude impetuosa, mas de uma maturidade paciente. A sua aptidão para o envelhecimento é notável, transformando as notas de fruta de polpa branca e cítricos em camadas complexas de mel, cera e frutos secos, como se o tempo, em vez de o consumir, o lapidasse.

As notas de prova são a narrativa poética da paisagem, ao nariz, desvela-se com discrição, com um perfume que evoca a casca de limão, a flor de laranjeira e, por vezes, um ligeiro toque de resina de pinheiro. Na boca, a sua textura untuosa e a acidez equilibrada são como um rio que corre sobre leitos de pedra, deixando um rasto de frescura e um final de persistência salina.
É um vinho que exige reflexão, um hino à terra que o viu nascer e uma ode à arte da vinha e do tempo. Não se bebe o Encruzado; contempla-se a sua essência, a sua calma e a sua profunda ligação à identidade do Dão.






